A lua cheia tingia o céu negro perfilado por estrelas cintilantes que regiam o espetáculo temporal mais plausível da Terra, o farfalhar das folhas das árvores, eclodido pela brisa sutil, transmitia um estalido superficial que provocava sensações de calmaria e repouso. A noite aprazível suscitou na jovem moça uma vontade incoercível de sentar-se na frente do computador para praticar atos insidiosos. Flexionou os longos braços alvos sob a mesa e iniciou um bate-papo desinibido com um homem chamado André Sampaio. A moça estalou os delicados dedos como quem inicia algo que repercutirá por horas, tecendo – à sua maneira – , a possibilidade atilada de conseguir o colóquio perfeito para depois, o encontro aguardado. No perfil pessoal do rapaz, havia a descrição minuciosa da pessoa gentil e cortês que estava à procura de um novo amor para arraigar a sua vida infeliz. Com um vocabulário rebuscado e diligente, ele não se limitou a elogiar a jovem cujos olhos vibrantes pareciam penetrar a tela do computador. Estava lisonjeada diante da atmosfera maviosa daquele homem enigmático que dizia-se apaixonado pela beleza descomunal de sua interlocutora virtual. Ela contou a ele todos os seus segredos e sentimentos intrínsecos: começou falando do pai austero que não a deixava sair de casa, mencionou o último namoro desastroso, revelou que adorava comida japonesa, enfim, expôs toda a sua corrente de influências e relações para o galã curioso. Em pouco tempo, quando suas mãos finas vertiam suor e seus lábios molhados proclamavam por uma conexão mais íntima em resposta ao libido inquietante, a garota decidiu avançar o sinal despindo-se na frente da câmera de modo sensual e chamativo. Foi até a cozinha, semi-nua com um ursinho de pelúcia tapando a genitália, pegou uma garrafa de vinho e entornou-a rapidamente, voltando à frente da lente. O show particular prosseguiu entre uma pose e outra. Posições extravagantes tiravam a aparência virginal da moça, delatando de forma obscena, uma mulher selvagem e voluptuosa a ponto de enlouquecer santos devotos. Ela deslizava na cama, espreitando o olhar provocativo e rebolando malemolente na direção da microcâmera, que capturava todos os movimentos da menina-mulher. O homem com o qual ela se deleitava, não se pronunciou com a exibição, embora ela soubesse que sua presença por trás daquele monitor era indubitável. Logo após a sessão carregada de malícia, ela fez um último pedido ao parceiro oculto: “Vamos nos encontrar amanhã.” Solicitou a ele para que levasse fotos íntimas ao encontro casual. O pedido o fez indagar sobre a permissão de seu pai severo, no entanto, a moça mostrou-se intrépida e decidida, dizendo que estava louca para fugir de casa e viver uma aventura de devassidão. André Sampaio não relutou ao responder à moça com um sim, escrito com letras maiúsculas. Ao receber a mensagem de afirmação, a moça saltou da cadeira e contentou-se mandando-lhe beijos. Marcaram data, hora e local.
A porta do carro se abriu vagarosamente: era um Corsa Sedan prata. Os faróis piscaram melindrosamente duas vezes consecutivas sob a escuridão da noite tortuosa; as corujas gorjeavam, a relva gelada se movia com o passear do vento enquanto os galhos secos das árvores caíam sobre o veículo estacionado em paralelo à mata fechada. A luz interna do carro se acendeu, havia duas pessoas nos assentos dianteiros: uma delas estava imóvel recostada sobre o banco, e a outra parecia sorrir desenfreadamente com as mãos sob o volante. Uma música tocava alto, provocando agitação propulsiva no suposto condutor do Corsa. Ele estava afetado por algo descomunal, seu corpo aparentemente magro mexia-se incontinente, a cabeça com boné balançava no ritmo do rock pesado que entoava o ambiente. O homem estava eufórico e visivelmente febril. Alguns minutos mais tarde, ele se aquietou, embora balbuciante e estranho, olhou para a pessoa que estava ao seu lado, lançando-a para fora do carro dando-lhe um tremendo golpe com o pé direito sobre os ombros. O corpo era de uma moça. Notava-se cortes de faca profundos em seu peito e também nas pernas nuas. Havia uma grande incisão na parte superior do órgão sexual e algo extremamente inusitado introduzido no umbigo da jovem: um pen drive com formato de foice. Mórbido. A vítima fora molestada e cruelmente assassinada naquela noite de sábado, seu corpo frio estava abandonado no chão de um lugar inóspito e sua vida fora ceifada por alguém perigosamente articulado. Sem mais tempo a perder, o homem fechou a porta do automóvel depressa, deu partida e, passando por cima do cadáver, sumiu na escuridão.

As duas próximas semanas foram aterrorizantes para a população que esperava providência imediata das autoridades na captura do assassino. Um assassino meticulosamente frio e impiedoso com suas vítimas, todas elas com idade entre dezenove e vinte e três anos. Jovens, belas e mortas por um sedutor da internet, estigmatizado com os velhos estereótipos de um psicopata que analisa e estuda cada detalhe de suas vítimas para depois atacá-las em lugares relativamente distantes e de difícil acesso. Marcando encontros promovidos por bate-papo na rede mundial, ele convence as jovens a fazerem a proposta através da própria confiança que transmite a elas, elogiando os corpos das garotas enquanto estas se exibem na frente da câmera. O pen drive no umbigo das vítimas é o que mais intriga a polícia: por que ele deixa o objeto USB inserido nos corpos? Não conseguiram identificar o conteúdo do porta-arquivos, mas muitos acreditam que há neles fotos obscenas, tiradas por ele mesmo a fim de provocar os investigadores ou algo do tipo. André Sampaio, Rafael Moreira, Eduardo Rodrigues. Qual era a verdadeira identidade dele? A massa popular o vulgarizou como “maníaco do USB” em alusão à sua fixação pelo objeto. Em todos os casos de estupro, o maníaco usou facas para violentar sexualmente as mulheres: fato que também levantava muitas hipóteses para a polícia federal. Ele não tocava em suas mártires e era extremamente habilidoso quanto às digitais, provavelmente praticava os homicídios usando luvas de borracha. Os investigadores constataram marcas de botina tamanho 39 próximo a um dos cadáveres, entretanto esta pista de nada servia para deflagrá-lo. Tinham poucas provas e tudo o que faziam, perante os fatos violentos, desfalecia as esperanças da população taciturna, insegurança e vulnerável.
Em uma noite de domingo, Adriana, quinze anos, magra, amável e extremamente bonita, decidiu entrar numa sala de bate-papo online. Havia brigado com o namorado e estava decidida a fazer novas amizades e, quem sabe, começar um relacionamento sério. Ela era pertinaz, obstinada e quando decretava algo em sua vida, acontecia de verdade. Adriana era apaixonada pela banda Legião Urbana e escrevia poesia com frequência em um caderno pequeno. Era uma menina exemplar na escola, tirava excelentes notas: virtudes adjacentes que a tornava única para os pais. Naquela noite fatídica, a jovem garota estava sozinha em casa, procurando por alguém para conversar quando encontrou uma possível amizade entre os visitantes do site: um rapaz moreno chamado Gabriel, que disse ter a mesma idade que a sua, revelando-se adorável e sincero. Adriana se encantou, porém estranhou quando ele pediu a ela para mostrar-lhe o corpo nu. Lá fora chovia forte, no momento em que ela se despiu impulsivamente. Depois, Gabriel disse que queria encontrá-la pessoalmente. Inocente, a jovem passou-lhe o endereço de sua residência sem pestanejar. Regozijou-se. Queria descontar toda sua gana do namorado entregando-se ao novo amigo. A menina andava pela casa aflita, aguardando a chagada do rapaz que parecia ter esquecido do compromisso, deixando-a cada vez mais inquieta sob pungente expectativa. Imaginou Gabriel como um anjo lindo vindo dos céus incumbido de amá-la profundamente e entoá-la com as mais lindas canções divinas. Findando a sua angustiante espera, ouviu-se duas batidas na porta. Adriana sorriu e foi atender, cintilante. Sob a imensa escuridão atroz, Adriana fora surpreendida com um golpe no rosto. Não era um anjo divino e sim um monstro bárbaro: um homem corpulento decidido a fazer o mal àquela pequena garota. Ele a agarrou com suas mãos brutas, tapando-lhe a boca vorazmente para que ela não gritasse. Puxou-lhe os cabelos, proferindo palavras chulas e decadentes enquanto batia com uma espécie de madeira nas costas da menina, tirando-lhe, em seguida, o pijama amarelo. Adriana urinou de tanta dor, mas nada o fazia parar com a violência exacerbada. Arrastou a jovem para o quarto, jogando-a contra a parede até que ela desmaiasse completamente. Ele a puxou para cima da cama, fitou-a por um certo tempo, arfando desesperadamente, entretanto não estava satisfeito. Tirou o seu membro para fora e estuprou Adriana. Quando acordou, totalmente debilitada, estava amarrada sob a cabeceira da cama com um profunda queimadura no umbigo e sentindo dores latentes sobre todo o corpo. Adriana estava viva.
Embora tivesse sobrevivido ao ataque de um pedófilo tresloucado e emergido milagrosamente do inferno, Adriana nunca mais fora a mesma garota serena, doce e complacente de outrora. Entrou em estado de aflição e arraigou trauma de homens e mulheres genericamente. Aos dezenove anos, a moça passou a se mutilar, querendo ceifar sua vida e colocar um fim à sua maldita pertubação: tentou se jogar de um prédio de nove andares, mas fora interceptada pelo pai que falecera dois meses depois, vítima de câncer. A mãe casou-se novamente com um homem rico, mas que batia nas duas sem razões. Adriana fugiu de casa, passou fome, conviveu com todo o tipo de gente e passou a se prostituir para sobreviver. Uma das prostitutas disse a Adriana que ela era muito exibida e que se não fosse tão atirada, não teria sido estuprada naquela noite do passado. Adriana resolveu abandonar a vida promíscua e, de forma insana e inexplicável, passou a se vestir de homem, pois queria esconder a sua face, o seu corpo e sua alma ferida, estancada por uma dor gritante de infortúnio. Ela transfigurava-se todos os dias bem como conseguiu documentos falsos, assumindo uma outra personalidade, um outro ser. Era um homem violento por trás da pequena frágil: tornara-se uma assassina de jovens impetuosas da internet. Adriana matava para sentir-se bem consigo mesma, não tinha medo de ser pega, confiava em seus instintos e tampouco se preocupara com suas vítimas. Em cada caso, ela usava um computador diferente para que não procurassem pelo endereço, roubara um Corsa Sedan e usava ferramentas para torturar as moças indefesas: alicates, parafusos e martelo faziam parte do arsenal da psicopata. Adriana estava disposta a matar mais. Enquanto vivesse, mataria. Seu cérebro doentio reprimia a falta de amor e compaixão em seu coração que ainda batia, apesar de suprimir toda a forma de libertação pelo ensejo da paz. Poderia ter escolhido outro caminho para trilhar, mas decidiu ver sangue derramado e famílias inteiras despedaçadas. Adriana, 26 anos, nunca fora descoberta pela polícia. Mas o que tinha no pen drive? Um documento em PDF com a frase: “Quando a morte aparece não é o fim, é a chance de deixar o mundo menos podre.”

Uma Mente Perigosa, Um Cérebro Insano















