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Um Cérebro Insano


A lua cheia tingia o céu negro perfilado por estrelas cintilantes que regiam o espetáculo temporal mais plausível da Terra, o farfalhar das folhas das árvores, eclodido pela brisa sutil, transmitia um estalido superficial que provocava sensações de calmaria e repouso. A noite aprazível suscitou na jovem moça uma vontade incoercível de sentar-se na frente do computador para praticar atos insidiosos. Flexionou os longos braços alvos sob a mesa e iniciou um bate-papo desinibido com um homem chamado André Sampaio. A moça estalou os delicados dedos como quem inicia algo que repercutirá por horas, tecendo – à sua maneira – , a possibilidade atilada de conseguir o colóquio perfeito para depois, o encontro aguardado. No perfil pessoal do rapaz, havia a descrição minuciosa da pessoa gentil e cortês que estava à procura de um novo amor para arraigar a sua vida infeliz. Com um vocabulário rebuscado e diligente, ele não se limitou a elogiar a jovem cujos olhos vibrantes pareciam penetrar a tela do computador. Estava lisonjeada diante da atmosfera maviosa daquele homem enigmático que dizia-se apaixonado pela beleza descomunal de sua interlocutora virtual. Ela contou a ele todos os seus segredos e sentimentos intrínsecos: começou falando do pai austero que não a deixava sair de casa, mencionou o último namoro desastroso, revelou que adorava comida japonesa, enfim, expôs toda a sua corrente de influências e relações para o galã curioso. Em pouco tempo, quando suas mãos finas vertiam suor e seus lábios molhados proclamavam por uma conexão mais íntima em resposta ao libido inquietante, a garota decidiu avançar o sinal despindo-se na frente da câmera de modo sensual e chamativo. Foi até a cozinha, semi-nua com um ursinho de pelúcia tapando a genitália, pegou uma garrafa de vinho e entornou-a rapidamente, voltando à frente da lente. O show particular  prosseguiu entre uma pose e outra. Posições extravagantes tiravam a aparência virginal da moça, delatando de forma obscena, uma mulher selvagem e voluptuosa a ponto de enlouquecer santos devotos. Ela deslizava na cama, espreitando o olhar provocativo e rebolando malemolente na direção da microcâmera, que capturava todos os movimentos da menina-mulher. O homem com o qual ela se deleitava, não se pronunciou com a exibição, embora ela soubesse que sua presença por trás daquele monitor era indubitável. Logo após a sessão carregada de malícia, ela fez um último pedido ao parceiro oculto: “Vamos nos encontrar amanhã.”  Solicitou a ele para que levasse fotos íntimas ao encontro casual. O pedido o fez indagar sobre a permissão de seu pai severo, no entanto, a moça mostrou-se intrépida e decidida, dizendo que estava louca para fugir de casa e viver uma aventura de devassidão. André Sampaio não relutou ao responder à moça com um sim, escrito com letras maiúsculas. Ao receber a mensagem de afirmação, a moça saltou da cadeira e contentou-se mandando-lhe beijos. Marcaram data, hora e local.

A porta do carro se abriu vagarosamente: era um Corsa Sedan prata. Os faróis piscaram melindrosamente duas vezes consecutivas sob a escuridão da noite tortuosa; as corujas gorjeavam, a relva gelada se movia com o passear do vento enquanto os galhos secos das árvores caíam sobre o veículo estacionado em paralelo à mata fechada. A luz interna do carro se acendeu, havia duas pessoas nos assentos dianteiros: uma delas estava imóvel recostada sobre o banco, e a outra parecia sorrir desenfreadamente com as mãos sob o volante. Uma música tocava alto, provocando agitação propulsiva no suposto condutor do Corsa. Ele estava afetado por algo descomunal, seu corpo aparentemente magro mexia-se incontinente, a cabeça com boné balançava no ritmo do rock pesado que entoava o ambiente. O homem estava eufórico e visivelmente febril. Alguns minutos mais tarde, ele se aquietou, embora balbuciante e estranho, olhou para a pessoa que estava ao seu lado, lançando-a para fora do carro dando-lhe um tremendo golpe com o pé direito sobre os ombros. O corpo era de uma moça. Notava-se cortes de faca profundos em seu peito e também nas pernas nuas. Havia uma grande incisão na parte superior do órgão sexual e algo extremamente inusitado introduzido no umbigo da jovem: um pen drive com formato de foice. Mórbido. A vítima fora molestada e cruelmente assassinada naquela noite de sábado, seu corpo frio estava abandonado no chão de um lugar inóspito e sua vida fora ceifada por alguém perigosamente articulado. Sem mais tempo a perder, o homem fechou a porta do automóvel depressa, deu partida e, passando por cima do cadáver, sumiu na escuridão.

As duas próximas semanas foram aterrorizantes para a população que esperava providência imediata das autoridades na captura do assassino. Um assassino meticulosamente frio e impiedoso com suas vítimas, todas elas com idade entre dezenove e vinte e três anos. Jovens, belas e mortas por um sedutor da internet, estigmatizado com os velhos estereótipos de um psicopata que analisa e estuda cada detalhe de suas vítimas para depois atacá-las em lugares relativamente distantes e de difícil acesso. Marcando encontros promovidos por bate-papo na rede mundial, ele convence as jovens a fazerem a proposta através da própria confiança que transmite a elas, elogiando os corpos das garotas enquanto estas se exibem na frente da câmera. O pen drive no umbigo das vítimas é o que mais intriga a polícia: por que ele deixa o objeto USB inserido nos corpos? Não conseguiram identificar o conteúdo do porta-arquivos, mas muitos acreditam que há neles fotos obscenas, tiradas por ele mesmo a fim de provocar os investigadores ou algo do tipo. André Sampaio, Rafael Moreira, Eduardo Rodrigues. Qual era a verdadeira identidade dele? A massa popular o vulgarizou como “maníaco do USB” em alusão à sua fixação pelo objeto. Em todos os casos de estupro, o maníaco usou facas para violentar sexualmente as mulheres: fato que também levantava muitas hipóteses para a polícia federal. Ele não tocava em suas mártires e era extremamente habilidoso quanto às digitais, provavelmente praticava os homicídios usando luvas de borracha. Os investigadores constataram marcas de botina tamanho 39 próximo a um dos cadáveres, entretanto esta pista de nada servia para deflagrá-lo. Tinham poucas provas e tudo o que faziam, perante os fatos violentos, desfalecia as esperanças da população taciturna, insegurança e vulnerável.

Em uma noite de domingo, Adriana, quinze anos, magra, amável e extremamente bonita, decidiu entrar numa sala de bate-papo online. Havia brigado com o namorado e estava decidida a fazer novas amizades e, quem sabe, começar um relacionamento sério. Ela era pertinaz, obstinada e quando decretava algo em sua vida, acontecia de verdade. Adriana era apaixonada pela banda Legião Urbana e escrevia poesia com frequência em um caderno pequeno. Era uma menina exemplar na escola, tirava excelentes notas: virtudes adjacentes que a tornava única para os pais. Naquela noite fatídica, a jovem garota estava sozinha em casa, procurando por alguém para conversar quando encontrou uma possível amizade entre os visitantes do site: um rapaz moreno chamado Gabriel, que disse ter a mesma idade que a sua, revelando-se adorável e sincero. Adriana se encantou, porém estranhou quando ele pediu a ela para mostrar-lhe o corpo nu. Lá fora chovia forte, no momento em que ela se despiu impulsivamente. Depois, Gabriel disse que queria encontrá-la pessoalmente. Inocente, a jovem passou-lhe o endereço de sua residência sem pestanejar. Regozijou-se. Queria descontar toda sua gana do namorado entregando-se ao novo amigo. A menina andava pela casa aflita, aguardando a chagada do rapaz que parecia ter esquecido do compromisso, deixando-a cada vez mais inquieta sob pungente expectativa. Imaginou Gabriel como um anjo lindo vindo dos céus incumbido de amá-la profundamente e entoá-la com as mais lindas canções divinas. Findando a sua angustiante espera, ouviu-se duas batidas na porta. Adriana sorriu e foi atender, cintilante. Sob a imensa escuridão atroz, Adriana fora surpreendida com um golpe no rosto. Não era um anjo divino e sim um monstro bárbaro: um homem corpulento decidido a fazer o mal àquela pequena garota. Ele a agarrou com suas mãos brutas, tapando-lhe a boca vorazmente para que ela não gritasse. Puxou-lhe os cabelos, proferindo palavras chulas e decadentes enquanto batia com uma espécie de madeira nas costas da menina, tirando-lhe, em seguida, o pijama amarelo. Adriana urinou de tanta dor, mas nada o fazia parar com a violência exacerbada. Arrastou a jovem para o quarto, jogando-a contra a parede até que ela desmaiasse completamente. Ele a puxou para cima da cama, fitou-a por um certo tempo, arfando desesperadamente, entretanto não estava satisfeito. Tirou o seu membro para fora e estuprou Adriana. Quando acordou, totalmente debilitada, estava amarrada sob a cabeceira da cama com um profunda queimadura no umbigo e sentindo dores latentes sobre todo o corpo. Adriana estava viva.

Embora tivesse sobrevivido ao ataque de um pedófilo tresloucado e emergido milagrosamente do inferno, Adriana nunca mais fora a mesma garota serena, doce e complacente de outrora. Entrou em estado de aflição e arraigou trauma de homens e mulheres genericamente. Aos dezenove anos, a moça passou a se mutilar, querendo ceifar sua vida e colocar um fim à sua maldita pertubação: tentou se jogar de um prédio de nove andares, mas fora interceptada pelo pai que falecera dois meses depois, vítima de câncer. A mãe casou-se novamente com um homem rico, mas que batia nas duas sem razões. Adriana fugiu de casa, passou fome, conviveu com todo o tipo de gente e passou a se prostituir para sobreviver. Uma das prostitutas disse a Adriana que ela era muito exibida e que se não fosse tão atirada, não teria sido estuprada naquela noite do passado. Adriana resolveu abandonar a vida promíscua e, de forma insana e inexplicável, passou a se vestir de homem, pois queria esconder a sua face, o seu corpo e sua alma ferida, estancada por uma dor gritante de infortúnio. Ela transfigurava-se todos os dias bem como conseguiu documentos falsos, assumindo uma outra personalidade, um outro ser. Era um homem violento por trás da pequena frágil: tornara-se uma assassina de jovens impetuosas da internet. Adriana matava para sentir-se bem consigo mesma, não tinha medo de ser pega, confiava em seus instintos e tampouco se preocupara com suas vítimas. Em cada caso, ela usava um computador diferente para que não procurassem pelo endereço, roubara um Corsa Sedan e usava ferramentas para torturar as moças indefesas: alicates, parafusos e martelo faziam parte do arsenal da psicopata. Adriana estava disposta a matar mais. Enquanto vivesse, mataria. Seu cérebro doentio reprimia a falta de amor e compaixão em seu coração que ainda batia, apesar de suprimir toda a forma de libertação pelo ensejo da paz. Poderia ter escolhido outro caminho para trilhar, mas decidiu ver sangue derramado e famílias inteiras despedaçadas. Adriana, 26 anos, nunca fora descoberta pela polícia. Mas o que tinha no pen drive? Um documento em PDF com a frase: “Quando a morte aparece não é o fim, é a chance de deixar o mundo menos podre.”

Uma Mente Perigosa, Um Cérebro Insano

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O Remédio do Tédio


A canseira entojava aquela professora de cabeça volumosa e de corpo rudimentar. Lia para seus alunos a mesma e surrada história do livro desencapado que lhe acompanhava por todos aqueles anos de infortúnio e descaso. Sua função a constrangia até nos dias mais regalados e bonitos. Mesmo quando não havia motivos para murmurar das estripulias dos garotos desordeiros, Lucélia ficava carrancuda o dia todo. Jogava palavras de escárnio contra as crianças que a chateavam; batia na mesa, pedindo atenção; gritava, urrava e perdia o controle de si mesma. Algumas pessoas – amigos, familiares – diziam a ela para buscar uma outra profissão, pois sua frustração estava cada vez mais visível no semblante desenxavido. Poderia cozinhar. Era ótima em culinária. Só detestava fritar ovo, tinha um certo pavor de fazê-lo e irritava-se quando a gema grudava no fundo da frigideira. Arremessava tudo pela janela e a vontade de preparar o jantar, expirava. Lucélia estava perdida.

Outro dia chegou à escola atrasada, mal estacionou seu carro entre as árvores da fachada e imediatamente titubeou para adentrar ao local, preferindo acender um cigarro. Sentou-se em um banco, deixando livros e bolsa para trás, e iniciou uma longa reflexão. Ela só queria ficar ali parada, sozinha, intocada, sem ser incomodada por ninguém. Com os cabelos desgrenhados, corpo desforme, observava as pessoas passando na rua: jovens mães com seus filhos queridos, casais abraçados demostrando carinho e exalando amor, meninos rindo à toa como se a vida fosse feita de algodão-doce. Tudo parecia maravilhoso, inocente e puramente convincente, mas Lucélia não se imaginava feliz. Para ela, o sabor amargo do tédio e do desespero era a forma mais íngreme de viver, se é que vivia. Não tinha filhos, nunca se casara e tampouco tivera uma família. Não culpava ninguém, só queria agarrar a solidão e conviver com a dor abrupta que a reprimia. Acendeu mais um cigarro, desejou que este fosse o último, embora encontrasse na droga um subterfúgio para relaxar e esquecer a tristeza. Lucélia adormeceu…

Quando despertou de um sono pesado e fustigante, a mulher percebeu que estava em um local horrível: parecia um campo de refugiados com várias pessoas amotinadas, sujas e extremamente magras. Lucélia estava deitada sob um tecido fino onde mal podia se movimentar. Havia muitas crianças chorando com seus corpos franzinos, envoltas por mosquitos e cães sumários. Lucélia estendeu a mão, pedindo algo para beber a uma das mulheres presentes. Logo, uma senhora se levantou e trouxe-lhe um recipiente com pouquíssima água. Apesar do visível contratempo, aquela mulher afro-descendente ainda conseguia esboçar o sorriso mais astuto e perene daquela terra. “Aonde estou?”, se perguntava a professora, procurando não se exaltar. Ela via muita gente chegando e saindo da área onde estavam alguns homens armados como se estivessem de sentinela, autorizando ou não a entrada de pessoas para a tenda montada. De dentro da tenda, Lucélia enxergava um deserto imenso sem rastro algum de vegetação. O sol escaldante predominava, embora a vista mais desagradável era a qual estava lá dentro: uma criança prestes a falecer nos braços da mãe desesperada. A pobre criança, no demérito da dor pungente, morria aos poucos de fome, agarrada à progenitora. Uma outra moça, mais nova, segurava firme na mão dela enquanto outras pessoas chegavam feridas, machucadas e debilitadas para depois receberem cuidados básicos de saúde. Eles tinham poucos recursos, mas o envolvimento era reciproco, todos se ajudavam sem hesitar com solidariedade e respeito. A professora, deitada e inerte, percebeu que ali havia um homem que aparentava muitos anos de idade, atendendo às pessoas. Devia ser médico ou enfermeiro pelo fato de estar de branco e portando um estojo de primeiros-socorros com diminutos remédios e acessórios. Ele demostrava cuidado e paciência com todos os enfermos, exceto para com Lucélia que se contorcia no chão, com fome e dor. Uma dor estranha, diferente; uma dor cujo sintoma principal era o vazio no coração. O homem de branco parecia rejeitá-la de maneira que seus gritos tornaram-se inaudíveis e incompreendidos por ele, que tinha em mãos a cura para a sua doença íntima.

Aquela professora estava perdendo a resistência, sua boca seca desejava água, seu corpo fraco precisava de proteínas ou simplesmente de uma migalha de pão seco. Pensou no ovo frito que tanto desperdiçara, como queria comê-lo agora e acabar com a sua maldita fome. Enquanto se debatia, as pessoas da tenda iam recebendo alimentos vindos de algum lugar longínquo para a felicidade do povo. Eles festejaram com bramidos e palmas, finalmente se alimentariam depois de horas, dias sem comer. As crianças regozijavam. Lucélia estendia a mão encarecidamente até ser deferida por uma garotinha de olhos expressivos que entregou-lhe um pedaço suculento de bolo. Lucélia fitou a menina por alguns segundos, percebendo que aquela era sua única refeição e mesmo assim a dividiu com ela, uma pessoa que sempre reclamara da vida e que nunca compartilhara nada com ninguém. Lucélia chorou ao ver amor e transparência naquele gesto nobre da menina. Não se lembrara nem da última vez que havia chorado com tamanha sinceridade. O homem de branco, notando as lágrimas da professora, aproximou-se com sua singela maleta e disse-lhe: “Olá… Eu sou o médico e estou aqui para lhe ajudar, mas sobrou apenas um remédio para duas pessoas: você e aquela criança que encontra-se morrendo. A mãe dela pediu-me para entregá-lo a você, pois notou o seu sofrimento e, como professora, não pode morrer… Tem a honrosa missão de educar, uma das coisas mais importantes dessa Terra. Com sua existência, as crianças aprendem valores que levarão por toda a vida. E então, você quer o remédio?” Lucélia não pensou duas vezes e exclamou com gotas escorrendo dos olhos claros: “Eu já estou liberta do mal que me perseguia… Dê à criança este remédio e eu continuarei com a minha missão, graças ao que aprendi aqui… Obrigada!”

Hoje Lucélia é uma das professoras mais dedicadas de seu tempo e jamais desiste de levar conhecimento, educação e amor aos seus alunos. Depois de passar por grandes adversidades na África, como voluntária, ela luta pelos direitos humanos e hoje vê a vida com outros olhos. Ela nunca mais deixou o tédio interferir em seus sonhos.

Ensinar é um dom que nunca deve ser extinto…

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Manhã em Manhattan


Fazer as malas e organizar as poucas coisas que levaria para a viagem sem previsão de volta, deixava Larissa ansiosa e um tanto aborrecida. Não pensava no momento de dizer adeus à família até porque não seria um adeus definitivo e sim uma despedida rudimentar sem choro nem lágrimas. Não gostava disso. Tratou de arrumar a bagagem com a ajuda rigorosa de Mônica, sua melhor amiga desde o maternal, enquanto a mãe espiava pela porta do dormitório com aparente tristeza e inquietação. Ver a filha de dezoito anos indo embora assim de repente a deixava consternada pois nunca a imaginara longe de seus braços protetores; mas, por outro lado, sentia profundo orgulho ao saber que Larissa estava indo buscar a realização de seu sonho mais ardente: estudar Artes Cênicas. O pai comentou com todos no trabalho quando soube que a dedicada filha havia ganhado uma bolsa de estudos em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Ele exprimia toda a altivez sem pudor e proclamava aos quatro ventos que sua garotinha seria a pessoa mais conhecida do mundo através de sua paixão exacerbada e vontade clamorosa de atuar no palco maravilhoso da Broadway. Todos que conheciam a jovem aspirante à atriz sabia de seu talento entranhado e de sua dedicação meticulosa quando o assunto era interpretação teatral. Larissa era, por vezes, obstinada e muito espirituosa, fazendo momentos arraigados de tensão se transformarem em profusões de risos e relaxamento. Assim o fizera na noite em que deixou o seu reduto, no Brasil.

Nunca tinha viajado de avião, mas sempre imaginou-se dentro de um Boeing comercial. De dentro da aeronave, viu todas as coisas pela janela e notou o quanto elas eram pequenas lá de cima. Sentiu-se tão grande e importante que devaneou por delicados instantes: “O céu é o meu limite.” Depois disso riu desmesuradamente como se estivesse em um espetáculo de comédia mambembe. Larissa despediu-se da vida que deixara para trás e, por breves segundos, a vontade de chorar a visitou, no entanto, preferiu meditar sobre o novo caminho que a movia na busca de seu sonho na maior cidade americana. Quando desembarcou no aeroporto internacional na manhã de terça-feira, a jovem estava exausta, mas nada a impediu de vislumbrar a proporção do local. Havia tanta gente passando por ali entre um corredor e outro, dispersando-se num glomerado imenso de pessoas de todas as raças, modos e culturas. Larissa retirou a sua câmera de uma das mochilas e iniciou a sua primeira sessão de fotos no famoso Aeroporto John F. Kennedy. A moça introvertida passeava pela plataforma analisando os rostos diversos que permeavam aquele portal de seres humanos e clicava o dedo em sua máquina, registrando tudo o que os olhos gulosos viam. Com um cartaz nas mãos, Danielle – amiga de Larissa – sinalizou para que ela a encontrasse rápido no meio da multidão. Quando Larissa avistou a loura expressiva, correu em sua direção. E lá estavam elas: colegas adjacentes que finalmente estudariam no mesmo lugar, a respeitável Universidade de Columbia.

O diálogo em inglês fez Larissa sentir-se uma típica conterrânea de Danielle que nunca havia visitado o Brasil, sobretudo porque a amiga não falava bem de seu país natal, estivando assim desconfiança e retração da americana. Elas se conheceram pela internet quando ainda crianças, pequenas garotas falando de suas respectivas nações: Larissa era emblemática e apontava o Brasil como o pior lugar para se viver com toda a violência e miséria; Danielle se gabava ao mencionar o padrão econômico e sólido de seu país livre com portas abertas para todos. A premissa de tantos gostos e contragostos, formularam na mente da jovem Larissa a vontade pungente de estudar nos EUA e seguir a almejada carreira de atriz da Broadway. Em seu âmago pessoal, ela não queria mais voltar ao Brasil cujo mérito havia se depreciado em relação ás oportunidades que buscara desde menina. Ela tinha perdido a esperança de viver na terra do futebol e da bossa nova.

A manhã estava radiante, o céu límpido e atraente denotavam um clima fresco e quase puro. O universo parecia conspirar para a felicidade de Larissa, aquela moça cujo olhar aguçado nunca flagrara tamanha beleza. Sorridente, com a máquina fotográfica em mãos, fascinava-se com cada um dos movimentos da metrópole. Não via a hora de conhecer o Times Square e os principais edifícios de Wall Street. Quanto mais introduzida na cidade, mais sua vontade de visitar os lugares imponentes aumentava. Só não esperava que Danielle a convidasse para ir com ela até onde seu namorado trabalhava: num escritório do World Trade Center, Torre Sul. A garota estava animada para conhecer as monumentais Torres Gêmeas, um dos cartões postais dos Estados Unidos. Elas entraram em um táxi e seguiram para Manhattan…

Larissa falava a maior parte do tempo dentro do veículo. Por coincidência, o motorista do táxi era brasileiro e percebendo o sotaque paulista da jovem, iniciou uma prosa com a garota. Ele era ufanista, defendia até os ossos os valores e cultura tupiniquins. A moça não se sentiu a vontade com os argumentos do homem que as conduziam, mas reservou-se ao difamar o país. Danielle não estava entendo coisa alguma e tratou-se de apressar o condutor que, por sua vez, desculpou-se alegando que o trânsito estava congestionado. Danielle não acreditou e gritou histericamente com o rapaz: “Anda logo, seu negro!” Houve um silêncio brutal no veículo. Larissa olhou decepcionada  para a amiga e balançou a cabeça. “Olhem para o céu!”, exclamou o taxista. Elas olharam imediatamente ao que Danielle afirmou: “É só um avião…” Eles fixaram os olhos na aeronave que seguia pelo céu azul de Manhattan quando esta chocou-se com uma das Torres Gêmeas. Espantados, aflitos e sem saber o que de fato havia acontecido, o grupo testemunhou a maior tragédia americana de todos os tempos. Eles saíram para fora do automóvel, Larissa apanhou sua câmera e imediatamente fotografou a Torre Norte em chamas enquanto Danielle tentou ligar para o namorado de um celular, com as mãos trêmulas e o rosto pálido; não teve êxito. Eles estavam somente a alguns quarteirões do World Trade Center, mas a visão que se tinha da rua era devastadora. Uma nuvem de fumaça negra se instalou sobre o céu. Ninguém sabia o que estava acontecendo. O desespero tomara conta de todos.

Poderia ser um acidente aéreo ou algo do tipo, todavia as informações que se espalhavam não procediam. Larissa abraçou a colega desolada quando seu celular tocou. Era Kevin, o namorado, dizendo que estava bem mas que não tiveram ordem de evacuar a Torre Sul. Danielle pediu para ele sair do prédio urgente, no entanto, ele prometera que nada de ruim lhe aconteceria e que passariam por muitas coisas juntos. O homem do táxi lamentou-se dizendo ter amigos e clientes no local atingido. Num ímpeto, ele olhou para o céu e avistou o segundo avião… Danielle tentava acalmar o parceiro do outro lado da linha quando a aeronave chocou-se contra a Torre Sul. O sinal caiu imediatamente… Só houve gritos e clamores, mais nada…  Bombeiros e carros de resgate pediram passagem e proibiram veemente a entrada de pessoas nas imediações. De mãos atadas, Larissa e os demais nada puderam fazer enquanto corpos se jogavam dos edifícios. Era aterrador… Horrível…

Larissa só queria voltar para a casa, para os braços acalorados da mãe e do pai. Aquele dia nunca mais seria apagado de sua mente e da mente do resto do mundo. Aquele dia que, ironicamente, desmotivou o sonho americano de Larissa e a impulsonou a voltar para o Brasil, seu verdadeiro lar. Um dia que parou o planeta e propulsou guerras horrendas no oriente, aumentando o ódio dos americanos pelos povos distintos. Larissa sentiu isso no táxi, quando a amiga humilhou aquele pobre homem trabalhador. Mas ela não deixou de atuar, ela insistiu em ser atriz para sair da realidade desastrosa e da violência que só tende a aumentar. Infelizmente…

World Trade Center

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Revés do Crime


Em uma noite qualquer, dois amigos se encontraram para uma harmônica conversa sobre coisas triviais: falaram de mulheres, esportes e mulheres de novo. Sentados em uma mesa de bar, bebiam um vinho barato enquanto dissertavam com eloquência, chamando a atenção de todos no local. Após assuntos frívolos, os colegas convergiram para um diálogo pessoal cujo derradeiro passo resultou em confissões acaloradas de ambos. Rômulo estava estupefato de tantas dívidas e o trabalho burocrático o incomodava, queria férias mas o patrão sempre o desiludia com desculpas tolas. Férias estava fora de cogitação para ele que, apesar do significativo esforço e empenho, era só mais um funcionário assalariado daquela empresa mediana. Miguel lamentou-se por não ter condições de pagar um plano de saúde qualificado para a mãe que sofria de Parkinson e encontrava-se moribunda no leito de um hospital fétido. A voz gutural de Rômulo se misturava com a tossida estridente, resultado dos cigarros que o acompanha há anos e que podem matá-lo a qualquer momento, embora tenha que sustentar os filhos e pagar a hipoteca da casa. Não podia morrer agora, mas também não abriria mão do vício deliberadamente. Miguel não era fumante, mas tinha outro modo exclusivo de se autodestruir: jogos de azar. Ele dizia que era para pagar os remédios caros da “velha” que o trouxe ao mundo e confessou ao amigo com palavras diligentes: “Eu sou bom no que faço, cara”.

As horas passavam naturalmente naquela noite de sexta-feira, o clima estava ameno, havia um frescor no ar e a lua brilhava no céu de fumaça expelida pelo cigarro de Miguel. Eles contemplavam as estrelas e entornavam mais vinho para na sequência filosofarem sobre as coisas da vida, especificamente o famigerado dinheiro. Rômulo esbravejava, ascendendo o copo de bebida: “A riqueza só é bem vinda na casa dos homens que já são ricos.” Miguel completava, extasiado: “O dinheiro é um bem que só te faz mal… e eu quero este mal!” Estavam bêbados e cambaleantes quando se levantaram para ir embora. Miguel regurgitou o vinho nos pés de Rômulo que só não o bateu porque errou a mira do soco. O dono do bar os conduziu para fora, proferindo palavras chulas em demasia e os batendo com um guardanapo molhado. Enxotados do boteco, os amigos seguiram cantando com braços e ombros enlaçados um no outro. A cena era decadente, contudo, denotava explicitamente a forte amizade daqueles homens deméritos e dissolutos com suas respectivas vidas amarguradas, aviltadas e por vezes mordaz quanto aos problemas que enfrentavam no cotidiano. Para eles, sair da realidade e embebedar-se de tempos em tempos era um válvula de escape mais do que necessária.

Entre uma canção e outra, a dupla bramia ao vento e espantavam gatos e cachorros por entre as esquinas da escura cidade. Rômulo estava quase beijando o chão, suas pálpebras tremiam e sua cabeça balançava bilateralmente. Miguel resistia aos impulsos do corpo sacolejante e parecia menos inebriado comparado ao colega que tinha hora marcada para chegar em casa. Na certa, a esposa o esperava com os punhos cerrados e pronta para atacá-lo como sempre fizera em noites de tormenta. Ela o aguarda com certa paciência, sentada no sofá vendo tv e roendo as unhas esmaltadas; os olhos tremulam entre a tela e o relógio de parede, quando a porta se abre devagarzinho, ela salta no pescoço do marido e… diz que o ama muito enchendo-lhe de beijos e afagos. Miguel morava com o pai decrépito e certamente quando chegasse em sua residência, ele já se encontraria dormindo. Tudo o que o rapaz deveria fazer era limpar as fezes do velho espalhadas pelos cantos, além de trocar suas fraldas sujas por limpas. Miguel amava seu pai e nunca pensou na possibilidade de interná-lo, não bastasse ter a mãe sofrendo longe de sua companhia.

O caminho de volta era fácil, mas por razões óbvias os colegas cambaleantes erraram o trajeto e foram parar no centro da cidade. Rômulo já havia perdido totalmente o equilíbrio e sua voz dissonante pedia ao amigo: “Va-muus prá cazzz!” Miguel, por sua vez, o pegou pelos braços e, totalmente alucinado, respondeu: “Já estamos chegando… Já, já!” A cada esquina que cruzava, a dupla se sentia mais extasiada. Rodaram de um lado para o outro e decidiram procurar um banco para passarem a noite, pois os sentidos não respondiam mais e encontrar o caminho de volta era quase impossível naquela altura. Perto da agência bancária havia uma praça com amplos assentos. Miguel deitou-se devagar, Rômulo desmaiou!

Logo de manhã, os dois acordaram com dores cavalares de cabeça. Miguel estava no chão e com um galo na testa por conta do tombo, Rômulo pulou do banco e levou as mãos sobre a fronte com ar de arrependimento. Era pouco mais de cinco horas da manhã, algumas pessoas passavam pela rua e os fitavam com olhar de reprovação. Rômulo gritou: “Meu Deus! O que nós fizemos!” Miguel levantou-se com extrema dificuldade e ajeitou suas roupas no corpo esguio quando sentiu um volume saliente em sua jaqueta, abriu o zíper dos bolsos dianteiros e enfiou as mãos sobre eles, tirando de lá muito, mas muito dinheiro. Olharam-se estarrecidos por longos segundos até que Rômulo perguntou se Miguel havia roubado aquela grana toda. “Tá louco??? Claro que eu não roubei nada! Colocaram isso aqui enquanto eu dormia, só pode!”, gritou. Rômulo não sabia se chorava ou se saltava de felicidade, não tinha a mínima ideia de onde surgiu todo aquele dinheiro. Será que Deus ou algum anjo incumbido de ajudá-los teria feito uma graça divina diante das necessidades nas quais se encontravam?

Os amigos contavam a ‘bufunfa’ recostados no sofá da sala, enquanto a tv transmitia o noticiário matinal, onde dizia que o banco da cidade fora roubado na madrugada. As imagens internas da agência mostravam um homem bêbado desligando o alarme e, posteriormente, quebrando o caixa-eletrônico com visível falta de destreza: era Miguel. Rômulo virou-se repentinamente para o colega e o agrediu com um tapa no rosto. Miguel caiu para trás, confessando depois: “Sim, fui eu que roubei a grana… É a nossa salvação, cara. A salvação da minha família e da sua também…” disse ele chorando. ” Agora, você vai usar estes cinquenta mil para pagar um tratamento para os meus pais e vai pagar todas as suas dívidas. Entendeu?”, completou o rapaz em lamúrias. “Mas e você? Vão te prender!!”, exclamou Rômulo. “Eu vou fugir com o restante do dinheiro e volto assim que a poeira baixar… Confie em mim.” Ouviu-se um barulho de sirene vindo da rua. Os amigos se entreolharam e imediatamente esconderam a dinheirama. Toc, toc! Bateram na porta. Miguel foi até a gaveta do armário, sacou uma arma e a apontou para o próprio cérebro, proferindo: “Eu não vou suportar ficar preso… Adeus! Pow! Rômulo não acreditou no que seus olhos viram: o seu melhor amigo ali estendido no chão com uma bala atravessada no crânio. A porta se abriu impetuosamente e entrou o dono do bar gritando: “Vocês não me pagaram ontem, por isso chamei a polícia para… Meu Senhor! Quando os policiais adentraram na residência, encontraram a seguinte cena: Miguel morto no piso da sala, Rômulo com a arma na mão e o velho senil se limpando com o dinheiro…

Solução ou problema?

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Miss Centenário


Era de se esperar que toda noite a rainha do baile fosse se apresentar na festa das oito. Ela surgia, imprevisível, pela porta dos fundos e todo mundo se sentia no maior show de suas vidas sedentárias quando a bela moça aparecia exibindo muito brilho e ardor. Edgard ficou calado e seus pés não responderam aos comandos, ele vislumbrou a dama da noite com total fixação e prendeu os olhos arregalados nas pernas rijas e torneadas da dona da festa. Ela dançava intrépida no salão. Rodava o vestido florido conduzindo os demais presentes. Muitas mulheres olharam feio para a musa principal exprimindo inveja e inquietação, os homens caiam em si com os beliscões de suas parceiras e imediatamente desviavam os olhares constrangidos. Francisca tinha o poder de encantar a platéia mais indiferente de qualquer lugar com seu carisma e com sua beleza rara, exótica e inebriante. Uma mulher peculiar com traços indígenas, cabelos sedosos e olhar furtivo que homem nenhum soube desvendar. Fazia muito gosto de dançar nos bailes e cabarés da cidade e devidamente expor o seu vigor para a multidão, perdendo-se nas noites como uma leoa faminta à procura da presa. No seu caso, a diversão era um pedestal que lhe ajudava a manter-se viva e translúcida, ludibriando as mazelas da vida castigante.

Bernardo, o marido de Francisca, ficava em casa cuidando dos gêmeos enquanto a mulher saía para se divertir nas noites. Ele não gostava de lugares aglomerados tão pouco música moderna e gente se esfregando. Contudo, não abdicava o desejo da mulher de fazer aquilo que a deixava feliz, desprendendo-a da vida árdua e personificando o alter ego que se escondia naquela jovem mãe. Durante o dia, Francisca era uma simples dona de casa; à noite, Francisca tornava-se a  mais bela musa da cidade. Bernardo, contido pela provisão da qual estava habituado, esperava sentado a chegada da mulher. Exausta e poucas vezes embriagada, Francisca o beijava no rosto para depois cair na cama e dormir sob o olhar extenuado do marido passivo. Observava-a e via o quanto ela era linda, aquele corpo esbelto cheio de curvas e simetricamente modelado, os cabelos sedosos pareciam o desenho de ondas tempestuosas,  a tez  lisa e cuidada traçava o seu corpo semi nu e todo aquele perfume natural atordoavam o homem franzino. Até quando a mulher ia desprezá-lo? Ele ficava em casa dançando sozinho ao som do silêncio, esperando a amada retroceder ao lar, alimentando a esperança de que ela se jogaria em seus braços como nos tempos de outrora.

Francisca trabalhava de garçonete em um barzinho moribundo. Ganhava tão pouco pelos afazeres corriqueiros que estava prestes a abandonar o ofício, mas só não o fazia porque Bernardo não conseguia manter a casa sozinho. Os irmãos univitelinos estavam sempre com fome, esperando providência imediata dos pais que mantinham uma relação estranha para com eles, negligenciando cuidados e atenção. Não que Francisca fosse uma mãe ruim, mas sua preocupação maior era com a beleza exorbitante: tinha que estar sempre linda para o próximo baile. Bernardo ficava no sofá da sala, ela seguia para a festa particular. E assim seguiam eles com a monotonia imposta por eles mesmos para conduzir a falsa impressão de que tudo ficaria bem mais uma vez.

E lá estava ela no palco, dançando e desfilando para homens ricos e garbosos. Entre estas figuras sociais, estava o poderoso Edgard Monteiro, dono da mais famosa rede de rádios da região. Um homem conhecido por ser obstinado e extremamente decidido em suas escolhas. Ele flagrou Francisca imediatamente e quis saber mais sobre a mulher que o fizera ficar hesitante por longos minutos durante toda a performance dançante. Munido de um drink forte, foi falar com Francisca com o ávido charme do qual um homem tradicionalmente burguês dispunha na época. Sentou-se ao lado dela, pedindo lhe permissão, exibindo o sorriso maroto e fugaz, e posteriormente elogiando-a com palavras tênues, sonoras e delicadas. Ninguém a encantara tanto quanto o don juan que acabara de surgir em sua vida simples, elevando a autoestima da garçonete pobre, dando-lhe completa confiança de que seu talento ganhara notoriedade através da visão pungente de Edgard.

Francisca voltou para a casa caminhando pelas nuvens, estava tão animada que nada poderia angustiá-la, nem mesmo o marido reclamando de sua demora exagerada. Na noite seguinte, lá estava ela mais uma vez: contagiando o local com sua graça e fazendo poses insinuosas para Edgard que, por sua vez, não parava de fitá-la nem por um segundo. Cada relance era um convite à tentação, contudo Francisca mantinha o pensamento nos filhos e não queria que eles tivessem uma mãe adúltera. Ela estava lutando contra si, usando de todas as forças para não ceder à beleza penetrante do homem que prometera riqueza e sucesso a ela em um dos diálogos que tiveram. Se perante às leis matrimoniais seu instinto de esposa fiel a acusava, o desejo tentador de entregar-se a ele explodia por dentro e a fazia suspirar quando perto do galanteador da festa. Edgard passou a chamá-la de “minha miss”, provendo entre eles uma amizade chamativa da qual todos em volta se indagavam se havia um caso amoroso ou se estavam contidos apenas no sentimento de afeição. Mas não foi bem isso que Bernardo entendeu quando os viu na cama de um quarto de hotel logo após receber um telefonema anônimo. O marido não fez alarde, principalmente porque desconfiava da esposa e não a culpou pela traição, no entanto, deu-lhe um tapa no  rosto e a mandou embora sem contestações. E assim ela o fez. Culpada e envergonhada, nunca mais viu os filhos.

A vida de Francisca ao lado de Edgard era totalmente diferente de quando estava com Bernardo. Ela tinha tudo o que uma mulher dos anos 40 necessitava: uma casa com três quartos, um lindo Ford conversível e um guarda-roupa invejável com peças finas e caras. A miss estava em ascensão como atriz de radionovela e continuava a vislumbrar as noites com sua dança maravilhosa ao lado do homem que proporcionou a realidade de seus sonhos calados. Lá estava ela, brilhando e crescendo a medida que o tempo fluía e passava no vasto mundo das aparências. Francisca saiu do anonimato e estrelou em muitos folhetins, contracenou com atores consagrados e tornou-se uma das mulheres mais cobiçadas do Brasil. Edgard e Francisca ganharam o posto de casal exemplar e figuraram entre as personalidades mais carismáticas do gosto popular. Jantares com celebridades, viagens transcontinentais e visitas a presidentes marcavam a rotina diária dos dois. No entanto, Francisca carregava uma cruz consigo e não se perdoava com o que fizera aos filhos e ao ex-marido. Tentou procurá-los, mas Bernardo havia sumido sem deixar vestígios… Depois de um tempo, ela desistiu e concentrou-se apenas na carreira de atriz.

Depois do rádio, Francisca estreou ma Tv. Edgard a colocou como protagonista de novelas e o sucesso surgiu rápido. Todos paravam para vê-la interpretar. Francisca foi para o cinema, ganhou o Oscar trabalhando com Marlon Brando e Elizabeth Taylor. Estava linda de se ver. No ponto culminante de sua carreira, foi líder do movimento feminista nos anos 60 e arregaçou as mangas contra a ditadura militar, todavia teve que fugir do Brasil com Edgard para os confins da Europa. Regressaram à terra natal e a miss continuou com a vida de glamour da qual nunca se desprendera. Ela já estava com quase sessenta anos, mas o mesmo olhar misterioso continuava a cingir seu rosto de poucas rugas.

Francisca foi chamada ao programa da amiga Hebe Camargo para conceder-lhe uma entrevista pessoal. Entre perguntas e declarações, a atriz desabafou profundamente e contou ao país sobre os filhos que não via a mais de trinta anos. Disse que seu maior sonho era de encontrá-los novamente para dizer o quanto estava frustrada com as coisas que os separaram. Hebe a consolou, mas depois do programa Edgard foi violento e inescrupuloso pela primeira vez. O marido, não bonito e charmoso mais, deu-lhe dois tapas, avisando-a que se falasse de novo nas crianças a mataria. Francisca alegou que estava cansada da vida de celebridade e afirmou que partiria em busca dos filhos mesmo que ele a impedisse. Edgard era frio demais e estava tomado pelo orgulho para entender o sofrimento de Francisca que passou tanto tempo com este tormento na consciência, com o coração flamejando toda vez que lembrava o nome dos garotos.

Francisca sempre se perguntou porquê havia deixado os filhos nas mãos do pai displicente. Poderia ter fugido com eles ou simplesmente acompanhado o crescimento de ambos. Na época era tão jovem e estava demasiadamente apaixonada por um príncipe de conto de fadas, sem saber que na verdade era um homem medíocre e insensível cujo propósito maior era barganhar às suas custas. Pensava se todo aquele sucesso valia mesmo a pena e se todas aquelas pessoas solenes eram felizes realmente ou se fingiam por dentro como ela própria fizera diversas vezes. A cada data de aniversário dos gêmeos, ficava trancada em seu quarto chorando e lamentando-se por negar amor a eles. Com o passar do tempo, ao interpretar mulheres valentes e mães decididas, notou que não fizera de coração por não saber a sensação de uma genitora presente.

Francisca está com cem anos. Com a saúde debilitada, ela padece em uma cadeira de rodas desde que tentara se suicidar em 1987. Edgard também estava no carro com o qual ela bateu violentamente contra um poste. Ele morreu, ela ficou paraplégica. Hoje, Daniel e Miguel e seus filhos cuidam da mãe que já não enxerga mais. Só profere de vez em quando algumas frases do tipo: “Eu amo minha família! ” Recentemente, o neto Pablo escreveu um livro sobre ela chamado Miss Centenário.

As vezes um erro pode levar uma vida inteira para ser perdoado.

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O Último Führer


Depois de efetivar muitos sonhos astuciosos e prosseguir com planos voláteis que consistiram em destruição em massa e incontáveis conflitos armados entre as nações pelas quais anunciou ódio e aversão, o führer – tal como era chamado – declarou-se inocente diante de cinquenta bilhões de pessoas que compõem o mundo todo, via Tv e Internet. Os jornais eletrônicos transmitiram a notícia com barbarismo e dividiram opiniões acerca da redenção oficial do ditador e do quão ele era importante e, ao mesmo tempo, atroz e impiedoso para com o povo. Dono de frases ardilosas e de punhos sempre cerrados, este homem era temido por muitos e idolatrado por outros quinhões que mantinham a arrogância sumária de seu ídolo incontestável. Esta grande porção chorava ao ouvir as declarações finais que pareciam adventício de um homem dotado de obstinação e cuja face sempre ardil nunca deixara ninguém estupefato quanto no dia descrito. Este dia ficou conhecido como “A morte do líder do mundo”. Mas o verdadeiro motivo da reclusão do ditador não fora totalmente revelado para a população e o mistério rondava a mente das pessoas, todas conectadas às redes de informações e interligadas simultaneamente para obter os detalhes da notícia bombástica que circulou o planeta em tempo ínfimo. Os americanos, adeptos ao partidarismo do führer, tentaram convencê-lo a ficar afim de cumprir seu plano mais ousado, no entanto as suas convicções para isso se diluíram completamente e a vontade de governar o mundo resumiu-se em vergonha, em abstenção. Todos se perguntavam o que havia acontecido com o führer. Será que ele estava doente e por esta razão deixaria o partido? Será que se cansou de cometer atrocidades e promover guerras sangrentas? A resposta só Richard Bonnier, o Hitler dos novos tempos, poderia fornecer à humanidade.

Richard nasceu nos anos 2000, depois da terceira Grande Guerra e do acidente nuclear na América do Sul. Filho de pais divorciados, Richard estudou nas melhores escolas dos Estados Unidos e aos dezenove anos viajou por toda a Europa à procura de conhecimento e influências políticas. Conheceu homens importantes, mulheres poderosas, fora adepto a revoluções conturbadas contra ditadores no Oriente Médio, ato que quase culminou com a sua morte em meio aos protestos que denotavam a ânsia por democracia e liberdade, também se engajou em causas nobres para combater a miséria e a pobreza. Richard era americano, nascera em uma cidadezinha do Texas mas sempre preferiu a vida conturbada das grandes metrópoles nas quais se instalara com frequência: ora estava em Londres, tomando café com o rei da Inglaterra; ora estava em Berlim, participando de debates relevantes sobre a escassez da água no planeta. Fisicamente, Richard era muito bonito, tinha os olhos verdes, cabelos escuros e uma marca de nascença no lado esquerdo do rosto alvo. Foi em uma comissão bem acalorada que Richard teve a esplendorosa ideia de criar o PEG, o Partido da Elite Global, visando a construção de uma nova ordem no âmbito da economia que andava falida e quase insolúvel à medida que os índices do Dow Jones mostravam números alarmantes baseados na cotação das principais Bolsas de Valores do mundo. Richard pretendia criar uma moeda única para abranger todos os países que aderissem a um  partido revolucionário com propósitos que suscitavam mudanças drásticas. O PEG era assim: constituía-se por integrar a sociedade em uma regra fundamentalista cujo propósito maior era de que todos deveriam ser iguais diante do plano trabalhista e econômico. Todos, sem exceção. Não tínhamos o Socialismo de Karl Marx, não tínhamos a ideologia consumista do Capitalismo; a sociedade estava a mercê da Era Programada. A era do imperialismo tecnológico, onde tudo funciona com cliques para o alcance de resultados subversivos, promissores e positivos dentro de corporações radicadas por princípios megalomaníacos que deixavam o resto da escória sem alternativas diante dos mais sábios e esquemáticos. Conhecimento era tudo, os profissionais tinham de ser indefectíveis para suprir defasagens, portanto, mostrar resultado era obrigatório em mercados competitivos em empregos acirrados. Quem não trabalhava para a corporação, não vivia, não tinha valor moral e civil. A vida seguia no conglomerado das decisões por parte dos líderes e com as ordens de um governo exigente em relação a trabalho e obediência, um governo que controlava o caminhar e  as provisões dos cidadãos que eram controlados por chips eletromagnéticos. Circuitos pequenos ligados à pele informavam a personalidade de qualquer um, o número da conta financeira, o registro civil e a localização imediata dos chamados “máquinas humanas”. Parece coisa de filme de ficção, mas a realidade dos habitantes da Terra castigada era exatamente ou parecido com Admirável Mundo Novo, onde realidade e ficção coexistiam mutuamente. A sociedade ativa vestia a camisa da revolução e bradava em protestos truculentos, porém todos eram contidos pela Força Policial que impunha ordem aos rebeldes e desordeiros.

Quando Richard iniciou-se na política o mundo já estava entregue ao medo, muito embora as controvérsias sobre sua conduta estava deixando o povo com sérias dúvidas, afinal matara muitos homens em conflitos orientais no Afeganistão, onde o petróleo estava extinto e o governo escravizava os cidadãos para a obtenção de lucros; no Irã, país onde ataques com armas nucleares haviam matado milhares de inocentes e no Iraque, com os extremistas sacrificando mulheres e crianças em prol de uma religião obsoleta. Richard não negava ter tirado a vida de civis inocentes, tanto se arrependera que deixara isto explícito em seus discursos dramáticos em que confessava relutantemente cada cena desenhada na imensidão da guerra entre tiros e bombardeios. O führer, nem sempre disposto a conceder entrevistas, compartilhava o seu pensamento miraculoso de mudar o mundo com uma série de medidas vinculadas à benefício da sociedade. Quando aparecia nos meios de comunicação, mantinha a postura respeitosa de um general e falava direcionando o olhar contundente para seus espectadores e interlocutores. Seu poder de persuasão tramitava além dos limites naturais e o seu dom de cativar parecia hipnotizar a todos que o escutavam. Presidentes, governantes, ministros, enfim, grande parte das autoridades paravam para ouvi-lo. Esperançosos  por conclusões ávidas, comemoravam o fato ou a fantasia personificada em um herói enérgico, um homem que falava de utopias com tremenda determinação para transformar possíveis problemas em soluções.

Acompanhado da glória que o consagrou nas guerras e do alto grau de carisma incólume, Richard candidatou-se a governador do estado do Texas. O führer ganhou vários títulos ao longo de sua trajetória no âmbito político e destacou-se de maneira contemplativa em vários cargos para os quais se habilitou. O povo o adorava, não por seus trejeitos e voz severa, mas por sua vontade abundante de mudar o que encontrava-se errado nos Estados Unidos. Depois de mostrar o seu lado bom e temperante, o führer tomou a forma de um vilão sem regras e marcou o início da Era da elite global. Tornou-se presidente americano, colocou seu plano de governo em prática, anunciou furor aos derrotados e criou constituições sem méritos humanos e altruístas, fazendo o que bem entendera com a população mundial através de aliados poderosos. Em uma época traçada por extinção de recursos naturais e energias limpas, foi conduzido a homologar a diminuição do consumo de forma radical e assinou acordos com os países ricos em florestas e vegetação para a extração total de matéria-prima. O Brasil perdeu a Amazônia, a África perdeu Madagascar e a Ásia também cedeu suas riquezas. Os continentes estavam subsidiando o maior e congruente poderio mundial: Os Estados Unidos da Europa. Sim, Richard Bonnier havia unificado as maiores potências econômicas, obrigando o resto do globo à prostrar-se diante da hegemonia liderada pelo chefe visionário. A vida desse homem sem medo era fatídica e seus planos consumiram seu cérebro aos poucos, iludindo-o com ódio e intolerância. O bom samaritano das guerras transformara-se num cão faminto, num animal repulsivo e sem precedentes morais e religiosos.

Não suportava a ideia de ser contrariado por qualquer instituição de Direitos Humanos, por isso forjou um ataque a ONU e matou todos os representantes da única ordem que poderia desmantelar seu império de atrocidades. Richard também erradicou a religião cristã dos Estados Unidos da Europa, alegando à população que Deus já havia abandonado o mundo e o deixara sob seu exclusivo comando. Uma lástima para os poucos fiéis que ainda pregavam sobres as ruas, levando a palavra das escrituras sagradas para os céticos famigerados que dispersavam-se enraivados. Livros eram queimados, homens pobres eram pisoteados e crianças morriam nos braços das mães com o contágio de doenças invisíveis que proliferavam a todo instante vindas de regiões assoladas por explosões nucleares. “É o começo do fim”, gritavam alguns.

Foram décadas de dor e sofrimento, de angústia e de inércia. O plano falido da paz estava  sucumbido pelas mãos horrendas de Richard Bonnier, o capitão do mundo, o senhor da guerra cuja arrogância e satisfação nunca tiveram tanta fiabilidade em sua vida composta de tiranias. Richard estava com quarenta anos, tinha o planeta nas mãos, tinha o poder de decidir tudo sozinho num estalar de dedos, conquistara a maior fortuna financeira distribuída em moradias luxuosas, automóveis e aviões caríssimos, fazendas invejadas, clubes e fábricas… Tudo pertencia a ele. Em seu coração não cabia mais nada, não havia espaço para a luz onde as trevas dominavam, em suma, não era capaz de amar ninguém. Detestado por muitos, idolatrado por outros, o führer admitiu estar passando da idade e não queria mais perder tempo: executar seu último plano. Reuniu seus assessores com os quais conversou durante horas sobre o polêmico assunto em seu escritório distante e febril, acompanhados por bancadas de protestantes que clamavam por um “basta já”. Na sala trancada a sete chaves, Richard e mais quatro homens de sua infinita confiança, conversavam solenemente sobre o tal plano enquanto fumavam seus charutos e bebiam do mais caro whisky. Estavam a postos em uma mesa quadrangular cravejada de bronze com detalhes dourados e simbologias maçônicas, os assentos eram de couro e na parede haviam quadros famosos de Salvador Dali e Paul Delvaux. Em meio às interjeições exageradas de Richard e às risadas forçadas de seus empregados, o silêncio surgiu impetuoso no ambiente de negócios através de uma leve batida à porta. Um dos homens levantou-se, pedindo permissão ao führer, e foi atendê-la. Ele se ausenta do recinto por alguns minutos, no entanto a reunião prossegue com Richard falando alto e gesticulando em demasia. O empregado retorna, sussurra no ouvido do poderoso homem que muda de expressão repentinamente. Ele grita apavorado diante dos assessores: “Não poder ser! Não!” Todos se retiram do local ao que Richard esmurra a mesa com tremenda fúria. Logo depois de fumar outro charuto e, aparentemente calmo, berra para um dos empregados: “Mande-a entrar! Quero vê-la imediatamente.”

A mulher surge na sala onde Richard está sentado com as pernas cruzadas e com os braços semi-flexionados na mesa. É uma mulher árabe, carregando uma criança no colo. Ela chora muito, embora o führer não exprima comoção alguma. “Não foi fácil chegar aqui… Eu só quero que você conheça a sua filha e… faça alguma coisa por ela… Ela está morrendo…” –  Disse a jovem mulher em prantos e entregando a pequena criança a Richard que se levantou atônito. “Não pode ser!  Eu tomei pílulas! Esta criança não é minha, mulher!!” – Gritou Richard. ” Basta olhar para ela e verá que é sua!” Richard aproximou-se devagar, relutando em mente para que aquela criança não fosse o que ele temia, e ao ver na face da garotinha a sua marca de nascença, teve a certeza mais cruel de sua existência: era a sua filha. Ela possuía a mesma saliência no lado esquerdo do rosto de Richard. O homem com o coração mais empedrado do mundo, sentiu as pernas tremerem e sentou-se novamente na cadeira, olhando fixo para a criança, travando uma briga por dentro para não desmaiar ou chorar. “Diga, mulher, o que você quer de mim? Como sabe, tenho tudo e dou-lhe o que pedir agora. Quer uma casa? Uma moradia?” – perguntou ele. “Não… Ela quer… Ela está morrendo… com a doença radioativa, mas antes de partir, tem algo a pedir-lhe.” – Completou a mulher. “Pare de machucar… o nosso mundo, por favor” – falou a menina com dificuldade e com respiração ofegante e dolorosa de se ver. Ela estava com as mãozinhas roxas e seus olhos lacrimejavam. Depois de tais palavras, a mulher deixou a sala e seguiu seu caminho incerto enquanto Richard ficou ali parado por horas e horas… Pensou no grande mal que fizera às pessoas, às guerras que decretara aos Estados e nações, pensou em seus pecados mais perversos contra a humanidade: o ódio sem motivo contra pessoas, os estupros às mulheres árabes que, consequentemente, deu-lhe uma filha ou muitas outras que nem conhecera porque estava pensando só em si e em seus ideais diabólicos. Richard pensou que aquele deveria ser o fim de seu reinado e o nascimento de uma nova era… Mas e o seu último plano ao qual tratara delicadamente com os assessores? O plano de exterminar os pobres e religiosos? Não. Estava fora de cogitação tal façanha. O führer se preparou para anunciar sua redenção e declarar-se culpado ou inocente para as cinquenta bilhões de pessoas que compunham o mundo. Deus havia ouvido a oração de alguém naquele dia e mandara aquela mulher para fazer algo milagroso: traçar uma nova história, um novo tempo. Recomeçar simplesmente.

Até quando o homem vai "brincar"com o mundo, achando que é Deus?

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Chocólatra


Talita abriu a caixa sem titubear. Ainda com as mãos cálidas e com o olhar efervescente para o objeto que, ao contrário da caixa de Pandora, não continha todos os males do mundo, mas todas as alegrias da Terra. Era uma caixa vistosa, pomposa e imensa sob o ponto de vista de qualquer pessoa que ama o conteúdo da embalagem bonita. Mas para Talita, eram poucos os dezoito bombons que compunham o objeto importado da Suíça. Chocolates deliciosos de incontáveis variedades e gostos, selecionados a partir de minuciosas buscas por paladares exigentes como o da adolescente em questão. Atacou os bombons depois de abrir o recipente com visível pressa e inquietação. Comia ininterruptamente na expectativa do próximo pedaço, o estômago se enchia fatigado e as mãos vorazes dançavam entre a caixa quase vazia e a bocarra aberta até o último. As amigas de Talita já estavam acostumadas ao vê-la entregar-se aos prazeres do chocolate, por isso não exprimiam admiração ou espanto algum. Para elas, a amiga era uma usuária, uma viciada em cacau e açúcar. Era uma autêntica chocólatra.

E este vício ou virtude, – não sei exatamente do que devo chamar – não aconteceu em última instância e nem nos tempos de infância da moça. Esta paixão por chocolates surgiu quando ela ainda estava no ventre de sua mãe, há dezessete anos atrás, quando era apenas um feto prestes a se transformar num ser predatório e mordaz no vasto planeta das delícias. Em sua gestação, a mãe tinha desejos incontroláveis e exorbitantes por chocolate. Só queria sentir o gosto tênue da mais saborosa trufa de amarula, senti-la derreter em sua boca e desmanchar-se deixando o recheio viscoso passear pelas cavidades e tornar-se a mais pura apreciação que seu paladar já experimentou, degustando cada textura existente no doce, cada centímetro de crocância e leveza que só o chocolate proporciona. Ninguém e nem mesmo ela sabia explicar a sua fixação involuntária por tortas, bolos, pudins entre outros manjares oriundos do chocolate. A matéria-prima para a vida de Talita estava esculpindo os seus traços, suas qualidades e o seu gosto voraz, é óbvio, pela fórmula que a consagrou como “a gorducha que só come porcaria”. Hoje, com quase cento e dez quilos, -está com o corpanzil monstruoso, – distribuídos em apenas um metro e setenta de altura. Sua face rechonchuda fica vermelha de raiva quando a confrontam no colégio com as antigas piadas sobre gordos. Embora seus pais saibam que esta não é a preocupação maior, e sim o seu desejo insaciável, não hesitam em comprar o “combustível” que move a jovem filha e por esta razão se vem obrigados a desembolsar muito dinheiro para estocar chocolate e agradar a “princesa” da casa. Há chocolate na geladeira, nos armários, na dispensa, nas gavetas do guarda-roupa, nas ramificações dos móveis da sala, no quintal, na lavanderia, nos colchões… “Tem chocolate no teto!” – exclama a empregada do lar.

Talita não para nunca. Basta raiar o diar e ela já está se empanturrando freneticamente , deixando tudo e todos de lado. Quando está com as amigas, as verdadeiras amigas que ela ainda não abandonou, a garota se abre e fala de seus sonhos: “Eu quero ser uma grande engenheira de alimentos e criar tudo o que… Choomp! (comendo) … ainda não existe de chocolate.” Não preciso nem mencionar que a data preferida de Talita é a Páscoa, todavia o dia do qual ela mais gosta mesmo, é quando sua avó chega de viagem da Suíça trazendo na bagagem sua almejada caixa de surpresas cujo conteúdo nunca foi novidade pra ninguém, só para a moça que faz desse encontro o momento mais relevante de sua jornada. Seu rosto grande e taciturno, cravejado de espinhas, torna-se vivo e fascinado tal como criança que descobre algo magnífico. Se tem coisa que a deixa triste é a falta de Chocolate. Não, não do chocolate comestível do qual tanto falei, mas do seu gato que também se chamava chocolate. Era um gato bonito, dócil  e fiel à Talita. Um belo dia, Chocolate saiu e não voltou mais, fato que levou os pais da jovem a acreditarem que ela come em demasia para suprir a falta que o felino faz em sua vida. Afinal, ela tinha apenas seis anos de idade. Na época, eles a levaram a um psicólogo que, avaliando a situação, acrescentou: “Arrumem outro gatinho para ela e vocês vão ver, ela vai se sentir bem melhor.” Os pais de Talita seguiram a orientação do doutor, conseguiram um gato para ela, porém, o bicho foi negligenciado pela menina. “Eu quero o Chocolate e não este gato aí”, disse ela cruzando os braços.

Apesar de ser uma pessoa compreensiva, eu não suportei a traição de Talita. Nós namoramos por duas semanas, duas eternas semanas e o que ela fez? Adivinha? Me trocou por uma barra de chocolates. Por isso estou falando sobre esta incisão que carrego em meu peito execrado. Eu confesso que amei esta garota imensa, sendo o único namorado que ela teve na vida, mas a paixão da mesma e o seu vício inveterado fizeram-me enxergar a realidade. Eu tentei de tudo: passeios, festas, presentes… E tudo o que ela quer é chocolate… Dizia para eu arrumar um emprego numa fábrica de chocolates e assim agraciá-la com bombons todos os dias, ligava para mim às três da manhã com vontade de comer trufas, queria uma casa feita de chocolates com cobertura de baunilha, me pedia um carro recheado de brigadeiro! Ela estava me sufocando, estava me deixando louco aos poucos… Mas eu não entreguei os pontos facilmente, foi ela quem me enxotou de seu cardápio. Um amigo me deu a ideia de tomar banho de chocolate e bater na porta dela. Que loucura! Até parece…

Chocolate faz bem ao coração!

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A Sombra do Gigante


Certo dia vi um menino sentado no banco da praça. A mesma praça afável onde eu lia o jornal municipal à procura de emprego na página dos classificados. Toda manhã eu estava lá e, de modo intimista, tentava esconder o desespero que tomara conta de mim naqueles últimos meses sem trabalho e quase sem perspectivas. Minha esposa, Diana, suscitava em mim a vontade de continuar e lembrava-me das adversidades do passado a quais superamos juntos constantemente resignados à derrota. Mas eu não conseguia manter a calma o tempo todo, sobretudo porque ela estava grávida de nosso primeiro filho. Garçom, motorista, pedreiro, ajudante, gari… qualquer coisa ajudaria no momento.

Eu folheava as páginas meticulosamente enquanto o garoto, ali do meu lado, estalava os dedos miúdos e mantinha a cabeça baixa a maior parte do tempo de maneira que ninguém pudesse fitá-lo. Perguntei a mim mesmo o que aquele menino estava fazendo parado ali numa manhã tão linda como aquela, quando poderia estar brincando com outros meninos e fazendo valer o seu direito de ser criança. No lugar dele, eu sairia daquele assento e procuraria por diversão: uma bola para chutar, um peão para rodar e fazer manobras fabulosas ou simplesmente correr à toa, pois a liberdade para se fazer isso pertence somente à infância. Depois que crescemos, temos que correr de outras coisas. Tudo é mais complicado.

O menino era negro, tinha lábios grandes e dentes tão brancos que pareciam neve. Mas esta última qualidade eu só percebi depois de tirar um sorriso tímido do guri após ler uma das piadas do jornal. Ele olhou atônito para mim, soltou os braços como se estivesse liberto de algo desolador e sua face pareceu-me menos abatida, embora ainda estivesse triste por dentro. Ele não quis dizer nada, apenas coçou a nuca e seguiu os diminutos dedos até a cabeleira espalhafatosa. Ao fixar-me em seus expressivos olhos, ele virou a cabeça e eu pude ver um hematoma em seu pescoço; uma marca pequena, mas bem notável naquele ser frágil e inerme. Uma marca oriunda de espancamento talvez. Eu não sei como pessoas, em seu âmago existencial e criadas por Deus que é dono do amor e da bondade, tem coragem de cometer tal atrocidade contra as indefesas crianças. Estive lendo nos últimos dias, casos brutais de violência aos menores, principalmente de pais que batem em seus filhos e chegam até a matar, como no caso da menininha Isabela. Eu peço a Deus para que me dê entendimento e sapiência de forma que eu saiba educar o meu filho dando-lhe muita atenção e carinho. Já disse a Diana: Nada de violência, vamos educá-lo através do diálogo e da compreensão… Diana faz cara feia e rejeita o meu modo de pensar alegando que “apanhar não faz mal a ninguém”. Embora eu tenha sido criado assim, entre tantas surras, não quero a prática da força física dentro de minha casa. Pelo contrário, quero ser amigo inseparável de meu descendente para que possamos resolver qualquer atrito na base da conversa e do companheirismo sem abdicar, é claro, de um castigo ou “puxão” de orelha quando precisar. Isso basta. Não me envergonho de ter apanhado dos meus pais, acho que sou uma pessoa indulgente apesar de quase ter morrido nas mãos de meu pai alcoólatra. Ele só era mau quando bebia demais e, em consequência disso, chegava em casa quebrando tudo. Depois, ele se arrependeu e fez de mim e meus irmãos adultos honestos e moderados.

Não demorou muito e eu me levantei do banco da praça e segui o meu caminho. O garotinho ficou ali recostado com o olhar distante e pungente sob a doce brisa da manhã. Eu me despedi dele, sem obter resposta alguma. Tive pena daquela criança, pois sua face emanava dor e angústia, uma espécie de aflição que só se cura com amor… e ele não era feliz. Eu percebi esta ferida assim que o vi “desgarrado” ali no assento, tão sozinho, tão distante. Eu tentei o confortar com um simpático gesto de amizade, porém manteve-se afastado de mim como se eu fosse uma criatura aterradora. Sem êxito, fui embora para meu lar e esperar o telefone tocar com alguma proposta de trabalho. Falei do menino à Diana, afinal tudo o acontece comigo eu conto à minha mulher. Não temos segredos um para o outro. Sentei-me na poltrona e comecei a relatar os fatos vivenciados naquela manhã: ao falar do menino na praça, Diana não conteve as lágrimas e entregou-se à emoção sabendo que havia muita maldade no coração das pessoas. Diana chora fácil, principalmente na fase delicada da gestação, ela simplesmente chorava ao saber que aquele garoto poderia estar sofrendo maus-tratos em sua casa. Pediu-me para fazer alguma coisa em relação a isso, acionar o Conselho Tutelar ou chamar a polícia, mas o fato é que eu não tinha certeza do que estava acontecendo. Mas o que nos afligia era saber que nosso filho viveria num mundo permeado pelo mal, um mundo avesso ao amor e cheio de contrastes. Só Deus para nos auxiliar e nos mostrar o melhor caminho a seguir.

Na manhã seguinte eu estava lá novamente com o meu jornal. Olhei para todos os bancos da praça e não vi o garoto em nenhuma parte. Fiquei parado por longos minutos tentando adivinhar o que havia acontecido com ele ou se nunca mais o veria de novo. Abri o jornal e iniciei minha busca incessante nos classificados quando de repente, ele apareceu na minha frente. Eu levei um baita susto! Ele só pediu-me para contar outra piada nos trejeitos do corpo esguio e magro. Colocou as mãos no bolso, ouviu-me com atenção e regozijou-se depois que terminei de ler para ele. Sua face triste transformou-se radicalmente dando lugar a um riso encantador. Diana adoraria vê-lo e saber que estava bem. Perguntei seu nome ao que respondeu, perdendo aos poucos a timidez: “É Davi”. “Davi! Você tem o nome de um pequeno-grande herói da Bíblia!”, disse eu revelando simpatia a fim de deixá-lo bem à vontade. Pediu-me para contar a história de Davi pois estava muito curioso para saber quem era este tal herói. Disse a ele que Davi lutou contra um homem muito grande de quase três metros de altura, o filisteu Golias que fora derrotado por Davi, israelita, pequenino mas muito valente e destemido. Golias era bravo e portava um imenso escudo e uma poderosa espada nas mãos, enquanto Davi só carregava uma espécie de estilingue e cinco pedras que encontrara perto do rio para combater o homenzarrão. Quando Golias o viu, tão franzino e sem armadura, riu do pequeno que o confrontava. Num golpe preciso tangido de muita confiança, ele acertou Golias na testa e derrubou seu oponente. Depois da vitória de Davi, o povo filisteu fugiu e nunca mais duvidaram dele… Com base na história, disse a Davi para enfrentar seus medos e monstros e para confiar em Deus através da fé.

Entre tantas conversas e histórias ali no banquinho da praça, eu e Davi tornamo-nos amigos de verdade. Eu contei-lhe a minha vida inteira desde quando tinha a sua idade, oito anos, disse que estava para ser pai e que gostaria que ele conhecesse meu filho. Davi contou-me que não tinha irmãos, mas adoraria ter com quem dividir brinquedos e fazer a “maior bagunça” juntos. Depois de confabularmos, eu cortei um pedaço de folha do jornal e fiz aviõezinhos para nós. Brinquei feito criança! A minha maior felicidade foi ver Davi enchendo-se de alegria e transpondo muitos sorrisos naquela manhã adorável. Algumas pessoas passavam pelo local e acenavam para nós como se fôssemos pai e filho em um ritual mágico de espontaneidade. Eu esqueci todos os meus problemas, deixei o itinerário e as frustrações de lado e fiquei brincando com o garoto o dia inteiro: rodamos o quarteirão à procura de outros meninos e arranjamos uma bola com a qual jogamos um belo futebol; depois soltamos pipa, eu ensinei Davi a fazer uma bem vistosa e armei a maior confusão com uns garotos que quiseram roubá-la de nós. Foi divertido.  O dia terminou e eu o levei para casa. Mas antes de perguntar-lhe se queria ir embora, ele respondeu-me com palavras trêmulas: “Não quero ir pra casa, tio…” Surpreso ao ver o seu rosto mudar de expressão, indaguei-lhe mais uma vez: “Por que?” “Eu tenho um gigante em casa”, respondeu-me baixando a cabeça e cerrando os olhos em seguida. “Não chore… Vá lá e enfrente este gigante sem medo, ouviu?” “Sim”, respondeu-me.

Cheguei em casa feliz, não tive dúvidas de que Davi se sairia bem e lutaria contra seus monstros particulares. Conte a Diana sobre Davi e do dia incrível que vivemos juntos. Minha esposa disse que não me via assim há muito tempo, embora não tivesse dúvidas de que eu seria um bom pai. Para completar o meu júbilo, ela agracio-me com uma ótima notícia: “Ligaram para você! Tem uma entrevista amanhã.” Quase enfartei! Agradeci a Deus e chorei feito criança por ter me ajudado a vencer este gigante atribulador.

No dia seguinte, lá estava eu na praça municipal, a velha praça que me acolhera durante o tempo de recesso profissional. Davi não estava por lá. Comprei o jornal diário na banca e sentei-me no banco cativo, o meu banco preferido. Na primeira página uma manchete que quase me matou de aflição: “Pai mata filho por espancamento.” Em minha mente surgiu a imagem Davi na hora, eu juntei as mãos em prece e fiquei pensando por breves segundos, não fixei em mais nada e corri até a casa do menino. Corri tanto que quase cai no caminho. Eu só pensava em Davi e no que havia acontecido com aquele pobre garoto, o meu amigo, o meu filho! Cheguei até a porta da residência todo suado, gritei pelo seu nome: “Davi! Davi!” Uma mulher jovem e bonita apareceu na janela. Acho que era a mãe de Davi. Passaram-se dois minutos e quem surge à porta? Davi. O meu amigo Davi, são e salvo…

Veio correndo ao meu encontro, gritando de braços abertos e com seu sorriso penetrante: “Tio, tio! Eu venci o gigante, eu consegui!” Meus olhos encheram-se de lágrimas. Levantei as mãos para o céu e testemunhei a maior dádiva do mundo, o maior legado das promessas de Deus para este mundo confuso e caótico. Eu o abracei e o beijei no rosto com afagos e carinhos. “Mas que gigante era este, Davi? Me fale…”, perguntei para o menino carismático. “Ora tio, eu não tenho mais medo de levantar à noite para ir no banheiro! Esses dias eu até cai e machuquei o pescoço… O senhor não viu não?” “Vi sim, meu filho, é claro que vi.”

Com fé, podemos derrotar qualquer gigante.

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A Bolsa


Depois que Marcela depositou todo o seu dinheiro, observou um rapaz encostado na lateral do caixa-eletrônico que ela acabara de usar. Ele usava boné, uma calça jeans multiplamente rasgada, brinco na orelha esquerda e, na boca, tinha uma cicatriz que dava ojeriza a qualquer pessoa. Marcela estremeceu, deslizando os pés sobre o chão e fitando-o com fobia extrema. Era um marginal, pensou ela.

Logo fechou a bolsa e a empunhou entre os braços, protegendo aquela que é indispensável a toda mulher moderna, rica e independente. Mesmo se o objeto feminino for simples e pequeno, não deixa de ser chamariz para indivíduos como este que confrontava Marcela a mais de dez minutos. A mulher percebeu que ele possuía uma arma no bolso, mas denotou imediatamente tratar-se de um brinquedo, uma “arminha” daquelas que seu filho Pedro brinca todos os dias.

Marcela percebeu também que o cara era jovem, aparentando ter menos de vinte e um anos. Mas é claro que ele era forte o suficiente para derrubá-la e estrangular seu sensível pescoço para depois levar a sua bolsa com tudo o que há dentro: jóias, talões de cheques e – meu Deus ! – seu precioso estojo de maquiagem.

Marcela se desesperou quando pensou nessa possibilidade e perguntou para si mesma o que fazer, como sair dali? Pensou no que seria dela sem a sua bolsa. Bolsa?

Foi aí que Marcela teve a mirabolante ideia de usar a bolsa pesadíssima para atacá-lo e esvair-se daquele banco o mais rápido possível. Quando a mulher se preparou para dar o golpe, o rapaz abriu a boca e disse, tirando a arma do bolso:

Por favor, acalme-se.  A senhora deixou cair isto do carro, eu estava passando e recolhi. Suponho que lhe pertença.

Marcela engoliu seco e não teve palavras para agradecê-lo. Ele saiu do banco, entrou em seu Astra e foi embora.

Bolsa Channel


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Sim, nós Temos Mulheres!


Por que Deus criou a Eva? Por que, com certeza, Adão estava sofrendo sozinho… Pensem no tédio que seria se nós homens olhássemos para todos os lados e o mundo fosse formado somente por nós… Teríamos que engravidar, fazer mil coisas antes de irmos para a tradicional “pelada” com os amigos, cozinhar, cuidar dos filhos, isso sem falar que teríamos que ser criativos, articulados, inteligentes… e tudo isso seria demais para nós. É claro que estou brincando numa versão nada machista nem feminista, eu sou a favor da diversidade e da complementação. O mundo é formado de gente homem e gente mulher. Eu acredito, de forma bem explícita, que viemos a este mundo para sermos pares. O côncavo se completa com o convexo, portanto, temos que respeitar a “ordem natural” das criações.

As qualidades das mulheres são inegáveis, porém, há quem se aproveite e pegue carona por ser “só mulher”, principalmente depois de uma Presidente eleita pelo voto popular. Popularizou-se o “a mulher chegou ao pódio, ao ponto máximo, ao pedestal, estão em tudo, avançando em todos os campos”… Não estou questionando o merecimento, estou sim, questionando a referência das pessoas, o reconhecimento, pois quantos e quantos anos tem as conquistas e as “bravuras” das mulheres? Não podemos menosprezar a importância das conquistas de espaço pelas mulheres, pois esta é uma batalha secular.

A mulher existe para manter o mundo em equilíbrio. A mulher existe para criar, para mostrar, sim, suas formas diferentes de ver e ajustar as coisas, sua linguagem peculiar, sua incomparável intuição. Todas elas tem, isto é inquestionável.  Com a modernidade estão cada vez mais à frente, lutando, criando seus filhos (muitas sozinhas), construindo suas vidas, seus patrimônios e vivendo seus amores com intensidade. Errando e acertando, porém sem perder a força de acreditar em dias melhores, sempre! Mais do que representar as gerações, elas vieram para manter o mundo unido, pois lutam junto aos demais pela sobrevivência, usando seus diferenciais, suas singularidades.

Graças a Deus elas existem. Graças a Deus elas evoluíram. E hoje vivem a licença poética de exercitar o verdadeiro ser. Podem exercitar a sua importância em qualquer ambiente, desde uma simples operação, até complexos recintos estratégicos. E podem, acima de tudo, mostrar que “ser” está ligado à essência do realmente “ter” para contribuir um mundo melhor e que a forma, a matéria, o corpo (que é a beleza que se vê) é externo e só as carrega e as conduz à liberdade para ir e vir. Elas são um batalhão de Joana D’arc, Olga Benário, Amelia Earhart, Marilyn Monroe e – é claro  - Dilma Rouseff, mas, todas indiscutivelmente CAPAZES. Elas trazem dentro de si uma força visceral para serem parceiras, para realizar e construir planos, para viver em plenitude e de peito aberto para as oportunidades. Uma força monstruosa que eu tanto admiro nessas “super guerreiras” e que fazem dessas qualidades um ponto crucial para vencer as batalhas do dia-a-dia. Parabéns mulheres por ser quem são!

Mulheres Protestando, Di Cavalcanti.

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