A Dona da Festa


Ana Maria poderia ter se tornado uma grande promotora de eventos ou, quem sabe, teria feito muito sucesso como animadora em recintos tristes cheio de pessoas esmorecidas, entediadas e cansadas da mesmice. Ana Maria poderia ter sido uma diplomata virtuosa, com todo o seu dom para ajustar as coisas e com toda a sua destreza para falar com quem quisesse escutá-la. Ana Maria poderia ter virado empresária, enfermeira, professora, veterinária, psicóloga… E, de certo modo, Ana Maria foi tudo isto e  um pouco mais. Antes de tudo, Ana foi uma mulher obstinada que sempre estava com um lindo sorriso nos lábios, escancarando-o para mostrar às adversidades da vida penosa. Posso estar exagerando, mas a verdade é que as coisas nunca foram fáceis para Ana: ela teve que batalhar duro para conquistar seus objetivos, sempre trabalhou ardilosamente para alcançar a independência e legitimar o seu valor como mulher, mãe e profissional.

Todos a conheciam por ser o tipo de mulher que corria atrás, que arregaçava as mangas e fazia acontecer. Ela era assim: não parava enquanto não alcançasse, não desistia fácil de seus objetivos pessoais. Era típico de sua personalidade, estava em seu sangue assim como o ar que respirava. Quando uma ideia martelava em sua cabeça produtiva, ela executava sem pudor, sem medo de errar, sem achar que estragaria tudo. Ana Maria errou muitas vezes, por sinal. Mas quem está livre de erros? Uma mulher que errou também ensinou muito aos familiares e amigos com lições marcantes como, por exemplo, o modo com o qual tratava os problemas e com seu jeito diligente de levar a vida sem se abater com coisas pequenas. Ana sempre estava sorrindo para todos, sempre apostava na felicidade e, mesmo quando não era correspondida, ela insistia. Entretanto, Ana Maria não era de ferro, pois chorava quando sofria por amar demais, por querer proteger as pessoas que adorava e era capaz de virar fera quando pisavam em seu calo ou quando alguém atrevia-se a mentir para ela. Odiava mentiras. A dona da festa, como vou chamá-la aqui, odiava falsidade e por isso, talvez, brigou com muita gente para impor suas verdades sem frescuras. Quem confrontou Ana Maria, sabe que ela tinha culhões e que não fraquejava, não deixava a peteca cair. Ana era doce, mas também sabia azedar.

Ana Maria amava uma festa. Ela era o centro das atenções quando estava em um ambiente com muita gente, muita comida, bebida e agitação, claro. Ela gostava de dançar com os pés descalços, rebolava, requebrava e caia na folia até quando não pudesse mais se segurar. E quando uma festa acabava, perguntava imediatamente quando seria a próxima para se programar o mais rápido possível. A decoração das festividades ficava por sua conta: no Natal era ela quem enfeitava a árvore, preparava tudo com extremo cuidado e delicadeza. A família sempre pedia a opinião dela para adornar a mesa de jantar; a criançada a convidava para encher as bexigas nos aniversários; nas festas juninas ela ia a caráter para não fazer feio no meio do pessoal. Ana era uma criança, uma moleca que nunca deixou de sonhar. Sonhava com uma casa maior para acomodar as filhas, sonhava com bons estudos para as crianças (incluindo os sobrinhos), sonhava em viajar para vários lugares e levar consigo quantas pessoas pudesse, sonhava com novas possibilidades de trabalho, de estudos. Queria estudar mais, aprender era com ela mesma. Aprendeu a dirigir com imensa facilidade, tirou a carteira de motorista, já com mais de quarenta anos, e pretendia comprar um carro para rodar por aí. E ninguém a segurava quando a dona da festa tomava as rédeas, quando assumia o controle.

O tempo foi curto para Ana, a festa acabou cedo para esta mulher de fibra, mas jamais poderemos dizer que ela não aproveitou cada instante, cada segundo de sua trajetória. Ana foi mulher contemporânea de tantas outras que lutaram para se destacar, para ganhar o seu “lugar ao sol”. Ela foi um exemplo de otimismo e perseverança para todos que a conhecia. Quando olhamos para trás, vemos uma mulher que dedicou-se à sua família, à sua casa, às coisas que julgava importantes. Ela merece um bom lugar agora para descansar e sossegar-se já que tinha uma energia incessante e que parecia infindável. Sentiremos saudades, é claro, de seu sorriso impactante, de suas broncas, de suas piadas… Sentiremos saudades de suas mancadas, de seus conselhos, de suas reclamações e, sobretudo, da sua adorável presença nas festas que perderão a graça e jamais serão inesquecíveis como outrora. Um dos últimos pedidos de Ana foi uma dose de champanhe, no hospital, que é um lugar que nada combinava com sua vitalidade arrebatadora. A música parou de tocar para ela, mas ela nunca deixará de dançar desenfreada em nossas lembranças. Ana Maria agora está em paz, sua morada agora é com Deus. E em nossos corações.

Tia Ana e seu sorriso inesquecível.

Tia Ana e seu sorriso inesquecível.

A Vida Amarga de Mel


Mel é totalmente avessa às suas obrigações. Não se incomoda de faltar ao trabalho sempre que está remoída em angústias passadas ou quando simplesmente perde o brilho do olhar e a vontade pungente de fazer algo compensador. Seus planos estão todos inacabados como, por exemplo, terminar de pintar a parede de seu quarto e organizar seus discos de vinil empoeirados na estante da sala. Quem disse que ela se importa? A moçoila já não ostenta mais a destreza de uma exímia cumpridora de metas, tampouco reverbera aquela chama pertinaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo como no passado, quando vivia para projetar coisas e construir artifícios oriundos de sua imaginação insaciável. A chama foi se apagando lentamente, a extroversão que a instigava foi se esvaindo e hoje Mel é uma pessoa superficial, sem propósitos e perspectivas. A verdadeira face de Mel está perdida em algum retrato, em outra época: nos tenros anos de vida, ou seja, escondida em sua infância marcante. Está em quando brincava na rua com seus amigos e fazia coisas simples de criança sem se preocupar com o amanhã, sem receio de perder o trem, o ônibus, o táxi. Mel queria voltar aos velhos tempos. Queria regressar ao passado o mais rápido possível, no entanto, não havia um modo racional e, por assim dizer, eficaz de retornar aos anos oitenta, quando pôde exacerbar todas as energias de seu corpo correndo ligeiramente pelo campo de futebol onde batia uma bolinha esperta com as amigas, depois tomava um delicioso banho na represa para se refrescar nas tardes ensolaradas de verão. Aquilo é que era vida. Portanto, Mel tinha que se conformar com a realidade na qual estava talhada, sabia que havia escolhido um caminho enfadonho para traçar, no entanto, não queria perder-se no ostracismo e nem cair nas amarras da solidão. Mel queria viver de verdade.

Mel tomou uma primeira atitude para acabar com a seu tormento interior e resolveu comprar um carro conversível para sair à noite. Quem sabe com uma máquina toda encrostada, chamativa e veloz, ela não encontraria amizades interessantes e se tornaria popular nas altas esferas sociais? Mel queria notoriedade, queria ser mais valorizada, mais cortejada. Quando chagava aos eventos com toda a pompa do mundo, chamava  muito a atenção das pessoas com seu carro imponente, mas ninguém via graça em Mel e em seu sorriso disfarçado e melindroso. Alguns homens tentaram a aproximação quando souberam que ela era a detentora do veículo, contudo, só se interessavam em saber o valor do carro, indagavam-na onde havia comprado e se poderiam passear com o automóvel. Mel percebeu que quando era criança suas amigas jamais se importariam com bens materiais e muito menos como se fazia para adquirir coisas das quais não se precisava de verdade. Mel estava enganada e, para acabar com qualquer contradição, teve a seguinte ideia: queimar o conversível. Isso mesmo, a mulher colocou fogo no “desejo de consumo masculino” e não se penalizou depois, pelo contrário, sentiu-se isenta de qualquer culpa e resignação. Ela precisava de algo substancial para voltar a ser quem era antes, talvez quisesse um namorado, afinal de contas, não se relacionava há muito tempo. O último caso durou apenas três semanas e duas brigas.

Foi numa quinta-feira de chuva que Mel e Gustavo saíram para jantar. Ele vestiu uma camisa vintage e calça jeans de boca fina; ela estava graciosa com seu vestido tomara-que-caia e de sapatilhas violetas. Formavam um casal sério, prescindível, enfim, Mel não se via agarrada com um rapaz excessivamente encabulado com tudo ao seu redor: a comida, os pratos, os talheres, a mesa, a cortina. A mulher tentou transparecer falando do trabalho, da casa elegante e do carro queimado. O rapaz não parecia interessado e fechou o cenho na hora. Mel havia encontrado uma pessoa mais aborrecida que si mesma e isso era assombroso demais. Ela simplesmente o deixou na mesa do restaurante, porém pediu-lhe desculpas por não ser a pessoa apropriada para um “homem tão equilibrado”. Gustavo ponderou por breves instantes, mas manteve-se calado e, sem sobressaltos, apanhou o celular e ligou para alguém com quem disse já estar disponível no momento. Mel foi embora carregada por sua dignidade, por seu aprendizado impetuoso de não ceder à frivolidade das pessoas, de não se contentar com aquilo que não é, no mínimo, merecedor. E ela merecia ser feliz. Quando a palavra feliz suscitou na mente de Mel, ela lembrou-se novamente da infância, das pessoas que comungaram com as ações do período mais feliz da existência e fez clara menção aos seus pais. Onde estariam seus pais? A última vez que os viu estavam muito doentes: a mãe padecia de dores, o pai, com mais de setenta anos, apresentava graves problemas de memória. Mel ainda se lembrava deles.

Quando foi visitá-los em um final de semana, Mel os encontrou visivelmente bem. A mãe, sempre receptiva, preparou bolinhos e serviu chá para a filha recém-chegada, além de presenteá-la com uma suntuosa conversa sobre o passado do qual a mulher tanto quisera emergir. O pai, doente e introvertido, não expressou fortes emoções, apenas assentia gentilmente com a cabeça diante da confabulação. Mel viu retratos antigos, gargalhou com as histórias vitalícias da mãe e debulhou-se em lágrimas ao saber que alguns amigos haviam morrido a pouco tempo. A mãe de Mel estava demasiadamente feliz por aquela prosaica visita, em receber – depois de muito tempo –  a filha que saiu cedo de casa e agora, pródiga, volta a chorar nos braços da mãe. Mel repensou em tudo o que havia perdido com a chegada do amadurecimento, com a ascensão da fase que toda menina vislumbra, da independência, da autonomia. Sim, ela fora embora precocemente do reduto dos pais para viver uma utopia na cidade grande, enfrentou mil percalços e, no final, sentiu-se dona de sua própria história. Ledo engano. Mel estava amargurada com seu fracasso pessoal. Ao olhar para o pai, cujos olhos sondavam o infinito e esporadicamente procuravam algo no vazio da imensidão, – como se quisesse encontrar algum sentido para as transformações impostas pela fragilidade da saúde, – Mel transmutou-se na figura escusa do pai. Ambos à procura do sentido da vida. E qual é o sentido?

A mãe preparava o jantar, o cheiro flanava pela casa toda e  incutia em Mel a sensação de prazer tal quando era garotinha. O regozijo era imensurável quando a mãe gritava lá da  cozinha: “Mel, vem comer, menina!” A mente da mulher se findava em lembranças saudosas, sensitivas. A mãe, cansada de ver a sua descendente chorando sem cessar, surdiu de onde estava e foi ter com a filha. Com o velho livro de receitas em punho, sentou-se ao lado da mulher que se eriçou ao ouvir os valorosos conselhos da progenitora: “Minha filha, está vendo este livro de receitas? Aqui estão os ingredientes, a medida certa para se usar e fazer o que se quer fazer: um bolo, uma torta, um quitute, um bem-casado,enfim, tudo! Basta seguir as palavras e preparar tudo com carinho que terá uma ótima refeição, certo? Bem, querida, com a vida não é tão simples assim… Infelizmente não existe um livro de receitas certo para usarmos como orientação. Tá, podemos até dizer que existem alguns ingredientes especiais a acrescentar como amor, saúde e felicidade, mas isso não é o essencial. Às vezes erramos na medida e no tempero e, então, sai coisas horríveis, né? Mas a gente vai lá e faz de novo: se carece de açúcar, a gente punha mais; se o negócio é fermento, vamos fazer crescer, mas não pode deixar de fazer, de tentar de novo… Se está amargo, então adoce … Filha, a vida é para ser vivida errando e refazendo até não sobrar mais nada, sem esquecer, é claro, de quem te ensinou a fazer sempre da maneira mais certa para alcançar a perfeição. Vá viver, filha, vá!” Mel abraçou a mãe e não conteve a emoção.

O rosto moreno de Mel estava transparecendo de satisfação, não só pelo jantar impecável da mãe zelosa, mas por toda demostração sincera de cuidado e preocupação para com ela. Naquele fim de semana, Mel voltou à sua cidade natal para se encontrar consigo mesma, para rever suas origens, seus princípios quase esquecidos e pôde, enfim, apinhar-se de novas esperanças. Mel percebeu que não precisava de um carro para atrair amigos, tampouco de uma casa grande para encher de futilidades, ela não necessitava de um namorado negligente e de companhias superficiais. Mel só precisava descobrir a sua verdadeira essência para se definir novamente.

Infância feliz: um componente vital.

Um Cérebro Insano


A lua cheia tingia o céu negro perfilado por estrelas cintilantes que regiam o espetáculo temporal mais plausível da Terra, o farfalhar das folhas das árvores, eclodido pela brisa sutil, transmitia um estalido superficial que provocava sensações de calmaria e repouso. A noite aprazível suscitou na jovem moça uma vontade incoercível de sentar-se na frente do computador para praticar atos insidiosos. Flexionou os longos braços alvos sob a mesa e iniciou um bate-papo desinibido com um homem chamado André Sampaio. A moça estalou os delicados dedos como quem inicia algo que repercutirá por horas, tecendo – à sua maneira – , a possibilidade atilada de conseguir o colóquio perfeito para depois, o encontro aguardado. No perfil pessoal do rapaz, havia a descrição minuciosa da pessoa gentil e cortês que estava à procura de um novo amor para arraigar a sua vida infeliz. Com um vocabulário rebuscado e diligente, ele não se limitou a elogiar a jovem cujos olhos vibrantes pareciam penetrar a tela do computador. Estava lisonjeada diante da atmosfera maviosa daquele homem enigmático que dizia-se apaixonado pela beleza descomunal de sua interlocutora virtual. Ela contou a ele todos os seus segredos e sentimentos intrínsecos: começou falando do pai austero que não a deixava sair de casa, mencionou o último namoro desastroso, revelou que adorava comida japonesa, enfim, expôs toda a sua corrente de influências e relações para o galã curioso. Em pouco tempo, quando suas mãos finas vertiam suor e seus lábios molhados proclamavam por uma conexão mais íntima em resposta ao libido inquietante, a garota decidiu avançar o sinal despindo-se na frente da câmera de modo sensual e chamativo. Foi até a cozinha, semi-nua com um ursinho de pelúcia tapando a genitália, pegou uma garrafa de vinho e entornou-a rapidamente, voltando à frente da lente. O show particular  prosseguiu entre uma pose e outra. Posições extravagantes tiravam a aparência virginal da moça, delatando de forma obscena, uma mulher selvagem e voluptuosa a ponto de enlouquecer santos devotos. Ela deslizava na cama, espreitando o olhar provocativo e rebolando malemolente na direção da microcâmera, que capturava todos os movimentos da menina-mulher. O homem com o qual ela se deleitava, não se pronunciou com a exibição, embora ela soubesse que sua presença por trás daquele monitor era indubitável. Logo após a sessão carregada de malícia, ela fez um último pedido ao parceiro oculto: “Vamos nos encontrar amanhã.”  Solicitou a ele para que levasse fotos íntimas ao encontro casual. O pedido o fez indagar sobre a permissão de seu pai severo, no entanto, a moça mostrou-se intrépida e decidida, dizendo que estava louca para fugir de casa e viver uma aventura de devassidão. André Sampaio não relutou ao responder à moça com um sim, escrito com letras maiúsculas. Ao receber a mensagem de afirmação, a moça saltou da cadeira e contentou-se mandando-lhe beijos. Marcaram data, hora e local.

A porta do carro se abriu vagarosamente: era um Corsa Sedan prata. Os faróis piscaram melindrosamente duas vezes consecutivas sob a escuridão da noite tortuosa; as corujas gorjeavam, a relva gelada se movia com o passear do vento enquanto os galhos secos das árvores caíam sobre o veículo estacionado em paralelo à mata fechada. A luz interna do carro se acendeu, havia duas pessoas nos assentos dianteiros: uma delas estava imóvel recostada sobre o banco, e a outra parecia sorrir desenfreadamente com as mãos sob o volante. Uma música tocava alto, provocando agitação propulsiva no suposto condutor do Corsa. Ele estava afetado por algo descomunal, seu corpo aparentemente magro mexia-se incontinente, a cabeça com boné balançava no ritmo do rock pesado que entoava o ambiente. O homem estava eufórico e visivelmente febril. Alguns minutos mais tarde, ele se aquietou, embora balbuciante e estranho, olhou para a pessoa que estava ao seu lado, lançando-a para fora do carro dando-lhe um tremendo golpe com o pé direito sobre os ombros. O corpo era de uma moça. Notava-se cortes de faca profundos em seu peito e também nas pernas nuas. Havia uma grande incisão na parte superior do órgão sexual e algo extremamente inusitado introduzido no umbigo da jovem: um pen drive com formato de foice. Mórbido. A vítima fora molestada e cruelmente assassinada naquela noite de sábado, seu corpo frio estava abandonado no chão de um lugar inóspito e sua vida fora ceifada por alguém perigosamente articulado. Sem mais tempo a perder, o homem fechou a porta do automóvel depressa, deu partida e, passando por cima do cadáver, sumiu na escuridão.

As duas próximas semanas foram aterrorizantes para a população que esperava providência imediata das autoridades na captura do assassino. Um assassino meticulosamente frio e impiedoso com suas vítimas, todas elas com idade entre dezenove e vinte e três anos. Jovens, belas e mortas por um sedutor da internet, estigmatizado com os velhos estereótipos de um psicopata que analisa e estuda cada detalhe de suas vítimas para depois atacá-las em lugares relativamente distantes e de difícil acesso. Marcando encontros promovidos por bate-papo na rede mundial, ele convence as jovens a fazerem a proposta através da própria confiança que transmite a elas, elogiando os corpos das garotas enquanto estas se exibem na frente da câmera. O pen drive no umbigo das vítimas é o que mais intriga a polícia: por que ele deixa o objeto USB inserido nos corpos? Não conseguiram identificar o conteúdo do porta-arquivos, mas muitos acreditam que há neles fotos obscenas, tiradas por ele mesmo a fim de provocar os investigadores ou algo do tipo. André Sampaio, Rafael Moreira, Eduardo Rodrigues. Qual era a verdadeira identidade dele? A massa popular o vulgarizou como “maníaco do USB” em alusão à sua fixação pelo objeto. Em todos os casos de estupro, o maníaco usou facas para violentar sexualmente as mulheres: fato que também levantava muitas hipóteses para a polícia federal. Ele não tocava em suas mártires e era extremamente habilidoso quanto às digitais, provavelmente praticava os homicídios usando luvas de borracha. Os investigadores constataram marcas de botina tamanho 39 próximo a um dos cadáveres, entretanto esta pista de nada servia para deflagrá-lo. Tinham poucas provas e tudo o que faziam, perante os fatos violentos, desfalecia as esperanças da população taciturna, insegurança e vulnerável.

Em uma noite de domingo, Adriana, quinze anos, magra, amável e extremamente bonita, decidiu entrar numa sala de bate-papo online. Havia brigado com o namorado e estava decidida a fazer novas amizades e, quem sabe, começar um relacionamento sério. Ela era pertinaz, obstinada e quando decretava algo em sua vida, acontecia de verdade. Adriana era apaixonada pela banda Legião Urbana e escrevia poesia com frequência em um caderno pequeno. Era uma menina exemplar na escola, tirava excelentes notas: virtudes adjacentes que a tornava única para os pais. Naquela noite fatídica, a jovem garota estava sozinha em casa, procurando por alguém para conversar quando encontrou uma possível amizade entre os visitantes do site: um rapaz moreno chamado Gabriel, que disse ter a mesma idade que a sua, revelando-se adorável e sincero. Adriana se encantou, porém estranhou quando ele pediu a ela para mostrar-lhe o corpo nu. Lá fora chovia forte, no momento em que ela se despiu impulsivamente. Depois, Gabriel disse que queria encontrá-la pessoalmente. Inocente, a jovem passou-lhe o endereço de sua residência sem pestanejar. Regozijou-se. Queria descontar toda sua gana do namorado entregando-se ao novo amigo. A menina andava pela casa aflita, aguardando a chagada do rapaz que parecia ter esquecido do compromisso, deixando-a cada vez mais inquieta sob pungente expectativa. Imaginou Gabriel como um anjo lindo vindo dos céus incumbido de amá-la profundamente e entoá-la com as mais lindas canções divinas. Findando a sua angustiante espera, ouviu-se duas batidas na porta. Adriana sorriu e foi atender, cintilante. Sob a imensa escuridão atroz, Adriana fora surpreendida com um golpe no rosto. Não era um anjo divino e sim um monstro bárbaro: um homem corpulento decidido a fazer o mal àquela pequena garota. Ele a agarrou com suas mãos brutas, tapando-lhe a boca vorazmente para que ela não gritasse. Puxou-lhe os cabelos, proferindo palavras chulas e decadentes enquanto batia com uma espécie de madeira nas costas da menina, tirando-lhe, em seguida, o pijama amarelo. Adriana urinou de tanta dor, mas nada o fazia parar com a violência exacerbada. Arrastou a jovem para o quarto, jogando-a contra a parede até que ela desmaiasse completamente. Ele a puxou para cima da cama, fitou-a por um certo tempo, arfando desesperadamente, entretanto não estava satisfeito. Tirou o seu membro para fora e estuprou Adriana. Quando acordou, totalmente debilitada, estava amarrada sob a cabeceira da cama com um profunda queimadura no umbigo e sentindo dores latentes sobre todo o corpo. Adriana estava viva.

Embora tivesse sobrevivido ao ataque de um pedófilo tresloucado e emergido milagrosamente do inferno, Adriana nunca mais fora a mesma garota serena, doce e complacente de outrora. Entrou em estado de aflição e arraigou trauma de homens e mulheres genericamente. Aos dezenove anos, a moça passou a se mutilar, querendo ceifar sua vida e colocar um fim à sua maldita pertubação: tentou se jogar de um prédio de nove andares, mas fora interceptada pelo pai que falecera dois meses depois, vítima de câncer. A mãe casou-se novamente com um homem rico, mas que batia nas duas sem razões. Adriana fugiu de casa, passou fome, conviveu com todo o tipo de gente e passou a se prostituir para sobreviver. Uma das prostitutas disse a Adriana que ela era muito exibida e que se não fosse tão atirada, não teria sido estuprada naquela noite do passado. Adriana resolveu abandonar a vida promíscua e, de forma insana e inexplicável, passou a se vestir de homem, pois queria esconder a sua face, o seu corpo e sua alma ferida, estancada por uma dor gritante de infortúnio. Ela transfigurava-se todos os dias bem como conseguiu documentos falsos, assumindo uma outra personalidade, um outro ser. Era um homem violento por trás da pequena frágil: tornara-se uma assassina de jovens impetuosas da internet. Adriana matava para sentir-se bem consigo mesma, não tinha medo de ser pega, confiava em seus instintos e tampouco se preocupara com suas vítimas. Em cada caso, ela usava um computador diferente para que não procurassem pelo endereço, roubara um Corsa Sedan e usava ferramentas para torturar as moças indefesas: alicates, parafusos e martelo faziam parte do arsenal da psicopata. Adriana estava disposta a matar mais. Enquanto vivesse, mataria. Seu cérebro doentio reprimia a falta de amor e compaixão em seu coração que ainda batia, apesar de suprimir toda a forma de libertação pelo ensejo da paz. Poderia ter escolhido outro caminho para trilhar, mas decidiu ver sangue derramado e famílias inteiras despedaçadas. Adriana, 26 anos, nunca fora descoberta pela polícia. Mas o que tinha no pen drive? Um documento em PDF com a frase: “Quando a morte aparece não é o fim, é a chance de deixar o mundo menos podre.”

Uma Mente Perigosa, Um Cérebro Insano

O Remédio do Tédio


A canseira entojava aquela professora de cabeça volumosa e de corpo rudimentar. Lia para seus alunos a mesma e surrada história do livro desencapado que lhe acompanhara por todos aqueles anos de infortúnio e descaso. Sua função a constrangia até nos dias mais regalados e bonitos. Mesmo quando não havia motivos para murmurar das estripulias dos garotos desordeiros, Lucélia ficava carrancuda o dia todo. Jogava palavras de escárnio contra as crianças que a chateavam; batia na mesa, pedindo atenção; gritava, urrava e perdia o controle de si mesma. Algumas pessoas – amigos, familiares – diziam a ela para buscar uma outra profissão, pois sua frustração estava cada vez mais visível no semblante desenxavido. Poderia cozinhar. Era ótima em culinária. Só detestava fritar ovo, tinha um certo pavor de fazê-lo e irritava-se quando a gema grudava no fundo da frigideira. Arremessava tudo pela janela e a vontade de preparar o jantar, expirava. Lucélia estava perdida.

Outro dia chegou à escola atrasada, mal estacionou seu carro entre as árvores da fachada e imediatamente titubeou para adentrar ao local, preferindo acender um cigarro. Sentou-se em um banco, deixando livros e bolsa para trás, e iniciou uma longa reflexão. Ela só queria ficar ali parada, sozinha, intocada, sem ser incomodada por ninguém. Com os cabelos desgrenhados e o corpo desforme, observava as pessoas passando na rua: jovens mães com seus filhos queridos, casais abraçados demostrando carinho e exalando amor, meninos rindo à toa como se a vida fosse feita de algodão-doce. Tudo parecia maravilhoso, inocente e puramente convincente, mas Lucélia não se imaginava feliz. Para ela, o sabor amargo do tédio e do desespero era a forma mais íngreme de viver, se é que vivia. Não tinha filhos, nunca se casara e tampouco tivera uma família. Não culpava ninguém, só queria agarrar a solidão e conviver com a dor abrupta que a reprimia. Acendeu mais um cigarro, desejou que este fosse o último, embora encontrasse na droga um subterfúgio para relaxar e esquecer a tristeza. Lucélia adormeceu…

Quando despertou de um sono pesado e fustigante, a mulher percebeu que estava em um local horrível: parecia um campo de refugiados com várias pessoas amotinadas, sujas e extremamente magras. Lucélia estava deitada sob um tecido fino onde mal podia se movimentar. Havia muitas crianças chorando com seus corpos franzinos, envoltas por mosquitos e cães sumários. Lucélia estendeu a mão, pedindo algo para beber a uma das mulheres presentes. Logo, uma senhora se levantou e trouxe-lhe um recipiente com pouquíssima água potável. Apesar do visível contratempo, aquela mulher negra ainda conseguia esboçar o sorriso mais astuto e perene daquela terra. “Onde estou?”, se perguntava a professora, procurando não se exaltar. Ela via muita gente chegando e saindo da área onde estavam alguns homens armados como se estivessem de sentinela, autorizando ou não a entrada de pessoas para a tenda montada. De dentro da tenda, Lucélia enxergava um deserto imenso sem rastro algum de vegetação. O sol escaldante predominava, embora a vista mais desagradável era a qual estava lá dentro: uma criança prestes a falecer nos braços da mãe desesperada. A pobre criança, no demérito da dor pungente, morria aos poucos de fome, agarrada à progenitora. Uma outra moça, mais nova, segurava firme na mão dela enquanto outras pessoas chegavam feridas, machucadas e debilitadas, para depois receberem cuidados básicos de saúde. Eles tinham poucos recursos, mas o envolvimento era reciproco, todos se ajudavam sem hesitar com solidariedade e respeito. A professora, deitada e inerte, percebeu que ali havia um homem que aparentava muitos anos de idade, atendendo às pessoas. Devia ser médico ou enfermeiro pelo fato de estar de branco e portando um estojo de primeiros-socorros com diminutos remédios e acessórios. Ele demostrava cuidado e paciência com todos os enfermos, exceto para com Lucélia que se contorcia violentamente no chão, com fome e dor. Uma dor estranha, diferente; uma dor cujo sintoma principal era o vazio no coração. O homem de branco parecia rejeitá-la de maneira que seus gritos tornaram-se inaudíveis e incompreendidos por ele, que tinha em mãos a cura para a sua doença íntima.

Aquela professora estava perdendo a resistência, sua boca seca desejava água, seu corpo fraco precisava de proteínas ou simplesmente de uma migalha de pão seco. Pensou no ovo frito que tanto desperdiçara. Como queria comê-lo agora e acabar com a sua maldita fome. Enquanto se debatia, as pessoas da tenda iam recebendo alimentos vindos de algum lugar longínquo para a felicidade do povo. Eles festejaram com bramidos e palmas, finalmente se alimentariam depois de horas, dias sem comer. As crianças regozijavam. Lucélia estendia a mão encarecidamente até ser deferida por uma garotinha de olhos expressivos que entregou-lhe um pedaço suculento de bolo. Lucélia fitou a menina por alguns segundos, percebendo que aquela era sua única refeição e mesmo assim a dividiu com ela, uma pessoa que sempre reclamara da vida e que nunca compartilhara nada com ninguém. Lucélia chorou ao ver amor e transparência naquele gesto nobre da menina. Não se lembrara nem da última vez que havia chorado com tamanha sinceridade. O homem de branco, notando as lágrimas da professora, aproximou-se com sua singela maleta e disse-lhe: “Olá… Eu sou o médico e estou aqui para lhe ajudar, mas sobrou apenas um remédio para duas pessoas: você e aquela criança que encontra-se morrendo. A mãe dela pediu-me para entregá-lo a você, pois notou o seu sofrimento e, como professora, não pode morrer… Tem a honrosa missão de educar, uma das coisas mais importantes dessa Terra. Com sua existência, as crianças aprendem valores que levarão por toda a vida. E então, você quer o remédio?” Lucélia não pensou duas vezes e exclamou com gotas escorrendo dos olhos claros: “Eu já estou liberta do mal que me perseguia… Dê à criança este remédio e eu continuarei com a minha missão, graças ao que aprendi aqui… Obrigada!”

Hoje Lucélia é uma das professoras mais dedicadas de seu tempo e jamais desiste de levar conhecimento, educação e amor aos seus alunos. Depois de passar por grandes adversidades na África, como voluntária, ela luta pelos direitos humanos e hoje vê a vida com outros olhos. Ela nunca mais deixou o tédio interferir em seus sonhos.

Ensinar é um dom que nunca deve ser extinto…

Manhã em Manhattan


Fazer as malas e organizar as poucas coisas que levaria para a viagem sem previsão de volta deixava Larissa ansiosa e um tanto aborrecida. Não pensava no momento de dizer adeus à família até porque não seria um adeus definitivo e sim uma despedida trivial sem choro nem lágrimas. Não gostava disso. Tratou de arrumar a bagagem com a ajuda rigorosa de Mônica, sua melhor amiga desde o maternal, enquanto a mãe espiava pela porta do dormitório com aparente tristeza e inquietação. Ver a filha de dezoito anos indo embora assim de repente a deixava consternada pois nunca a imaginara longe de seus braços protetores; mas, por outro lado, sentia profundo orgulho ao saber que Larissa estava indo buscar a realização de seu sonho mais ardente: estudar Artes Cênicas. O pai comentou com todos no trabalho quando soube que a dedicada filha havia ganhado uma bolsa de estudos em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Ele exprimia toda a altivez sem pudor e proclamava aos quatro ventos que sua garotinha seria a pessoa mais conhecida do mundo através de sua paixão exacerbada e vontade clamorosa de atuar no palco maravilhoso da Broadway. Todos que conheciam a jovem aspirante à atriz sabia de seu talento entranhado e de sua dedicação meticulosa quando o assunto era interpretação teatral. Larissa era, por vezes, obstinada e muito espirituosa, fazendo momentos arraigados de tensão se transformarem em profusões de risos e relaxamento. Assim o fizera na noite em que deixou o seu reduto, no Brasil.

Nunca tinha viajado de avião, mas sempre imaginou-se dentro de um Boeing comercial. De dentro da aeronave, viu todas as coisas pela janela e notou o quanto elas eram pequenas lá de cima. Sentiu-se tão grande e importante que devaneou por delicados instantes: “O céu é o meu limite.” Depois disso riu desmesuradamente como se estivesse em um espetáculo de comédia mambembe. Larissa despediu-se da vida que deixara para trás e, por breves segundos, a vontade de chorar a visitou, no entanto, preferiu meditar sobre o novo caminho que a movia na busca de seu sonho na maior cidade americana. Quando desembarcou no aeroporto internacional na manhã de terça-feira, a jovem estava exausta, mas nada a impediu de vislumbrar a proporção do local. Havia tanta gente passando por ali entre um corredor e outro, dispersando-se num glomerado imenso de pessoas de todas as raças, modos e culturas. Larissa retirou a sua câmera de uma das mochilas e iniciou a sua primeira sessão de fotos no famoso Aeroporto John F. Kennedy. A moça introvertida passeava pela plataforma analisando os rostos diversos que permeavam aquele portal de seres humanos e clicava o dedo em sua máquina, registrando tudo o que os olhos gulosos viam. Com um cartaz nas mãos, Danielle – amiga de Larissa – sinalizou para que ela a encontrasse rápido no meio da multidão. Quando Larissa avistou a loura expressiva, correu em sua direção. E lá estavam elas: colegas adjacentes que finalmente estudariam no mesmo lugar, a respeitável Universidade de Columbia.

O diálogo em inglês fez Larissa sentir-se uma típica conterrânea de Danielle que nunca havia visitado o Brasil, sobretudo porque a amiga não falava bem de seu país natal, estivando assim desconfiança e retração da americana. Elas se conheceram pela internet quando ainda crianças, pequenas garotas falando de suas respectivas nações: Larissa era emblemática e apontava o Brasil como o pior lugar para se viver com toda a violência e miséria; Danielle se gabava ao mencionar o padrão econômico e sólido de seu país livre com portas abertas para todos. A premissa de tantos gostos e contragostos, formularam na mente da jovem Larissa a vontade pungente de estudar nos EUA e seguir a almejada carreira de atriz da Broadway. Em seu âmago pessoal, ela não queria mais voltar ao Brasil cujo mérito havia se depreciado em relação ás oportunidades que buscara desde menina. Ela tinha perdido a esperança de viver na terra do futebol e da bossa nova.

A manhã estava radiante, o céu límpido e atraente denotavam um clima fresco e quase puro. O universo parecia conspirar para a felicidade de Larissa, aquela moça cujo olhar aguçado nunca flagrara tamanha beleza. Sorridente, com a máquina fotográfica em mãos, fascinava-se com cada um dos movimentos da metrópole. Não via a hora de conhecer o Times Square e os principais edifícios de Wall Street. Quanto mais introduzida na cidade, mais sua vontade de visitar os lugares imponentes aumentava. Só não esperava que Danielle a convidasse para ir com ela até onde seu namorado trabalhava: num escritório do World Trade Center, Torre Sul. A garota estava animada para conhecer as monumentais Torres Gêmeas, um dos cartões postais dos Estados Unidos. Elas entraram em um táxi e seguiram para Manhattan…

Larissa falava a maior parte do tempo dentro do veículo. Por coincidência, o motorista do táxi era brasileiro e percebendo o sotaque paulista da jovem, iniciou uma prosa com a garota. Ele era ufanista, defendia até os ossos os valores e cultura tupiniquins. A moça não se sentiu a vontade com os argumentos do homem que as conduziam, mas reservou-se ao difamar o país. Danielle não estava entendo coisa alguma e tratou-se de apressar o condutor que, por sua vez, desculpou-se alegando que o trânsito estava congestionado. Danielle não acreditou e gritou histericamente com o rapaz: “Anda logo, seu negro!” Houve um silêncio brutal no veículo. Larissa olhou decepcionada  para a amiga e balançou a cabeça. “Olhem para o céu!”, exclamou o taxista. Elas olharam imediatamente ao que Danielle afirmou: “É só um avião…” Eles fixaram os olhos na aeronave que seguia pelo céu azul de Manhattan quando esta chocou-se com uma das Torres Gêmeas. Espantados, aflitos e sem saber o que de fato havia acontecido, o grupo testemunhou a maior tragédia americana de todos os tempos. Eles saíram para fora do automóvel, Larissa apanhou sua câmera e imediatamente fotografou a Torre Norte em chamas enquanto Danielle tentou ligar para o namorado de um celular, com as mãos trêmulas e o rosto pálido; não teve êxito. Eles estavam somente a alguns quarteirões do World Trade Center, mas a visão que se tinha da rua era devastadora. Uma nuvem de fumaça negra se instalou sobre o céu. Ninguém sabia o que estava acontecendo. O desespero tomara conta de todos.

Poderia ser um acidente aéreo ou algo do tipo, todavia as informações que se espalhavam não procediam. Larissa abraçou a colega desolada quando seu celular tocou. Era Kevin, o namorado, dizendo que estava bem mas que não tiveram ordem de evacuar a Torre Sul. Danielle pediu para ele sair do prédio urgente, no entanto, ele prometera que nada de ruim lhe aconteceria e que passariam por muitas coisas juntos. O homem do táxi lamentou-se dizendo ter amigos e clientes no local atingido. Num ímpeto, ele olhou para o céu e avistou o segundo avião… Danielle tentava acalmar o parceiro do outro lado da linha quando a aeronave chocou-se contra a Torre Sul. O sinal caiu imediatamente… Só houve gritos e clamores, mais nada…  Bombeiros e carros de resgate pediram passagem e proibiram veemente a entrada de pessoas nas imediações. De mãos atadas, Larissa e os demais nada puderam fazer enquanto corpos se jogavam dos edifícios. Era aterrador… Horrível…

Larissa só queria voltar para a casa, para os braços acalorados da mãe e do pai. Aquele dia nunca mais seria apagado de sua mente e da mente do resto do mundo. Aquele dia que, ironicamente, desmotivou o sonho americano de Larissa e a impulsionou a voltar para o Brasil, seu verdadeiro lar. Um dia que parou o planeta e propulsou guerras horrendas no oriente, aumentando o ódio de alguns americanos pelos muçulmanos. Larissa sentiu isso no táxi, quando a amiga humilhou aquele pobre homem trabalhador. Mas ela não deixou de atuar, ela insistiu em ser atriz para sair da realidade desastrosa e da violência que só tende a aumentar. Infelizmente.

World Trade Center

Revés do Crime


Em uma noite qualquer, dois amigos se encontraram para uma harmônica conversa sobre coisas triviais: falaram de mulheres, esportes e mulheres de novo. Sentados em uma mesa de bar, bebiam um vinho barato enquanto dissertavam com eloquência, chamando a atenção de todos no local. Após assuntos frívolos, os colegas convergiram para um diálogo pessoal cujo derradeiro passo resultou em confissões acaloradas de ambos. Rômulo estava estupefato de tantas dívidas e o trabalho burocrático o incomodava, queria férias mas o patrão sempre o desiludia com desculpas tolas. Férias estava fora de cogitação para ele que, apesar do significativo esforço e empenho, era só mais um funcionário assalariado daquela empresa mediana. Miguel lamentou-se por não ter condições de pagar um plano de saúde qualificado para a mãe que sofria de Parkinson e encontrava-se moribunda no leito de um hospital fétido. A voz gutural de Rômulo se misturava com a tossida estridente, resultado dos cigarros que o acompanha há anos e que podem matá-lo a qualquer momento, embora tenha que sustentar os filhos e pagar a hipoteca da casa. Não podia morrer agora, mas também não abriria mão do vício deliberadamente. Miguel não era fumante, mas tinha outro modo exclusivo de se autodestruir: jogos de azar. Ele dizia que era para pagar os remédios caros da “velha” que o trouxe ao mundo e confessou ao amigo com palavras diligentes: “Eu sou bom no que faço, cara”.

As horas passavam naturalmente naquela noite de sexta-feira, o clima estava ameno, havia um frescor no ar e a lua brilhava no céu de fumaça expelida pelo cigarro de Miguel. Eles contemplavam as estrelas e entornavam mais vinho para na sequência filosofarem sobre as coisas da vida, especificamente o famigerado dinheiro. Rômulo esbravejava, ascendendo o copo de bebida: “A riqueza só é bem vinda na casa dos homens que já são ricos.” Miguel completava, extasiado: “O dinheiro é um bem que só te faz mal… e eu quero este mal!” Estavam bêbados e cambaleantes quando se levantaram para ir embora. Miguel regurgitou o vinho nos pés de Rômulo que só não o bateu porque errou a mira do soco. O dono do bar os conduziu para fora, proferindo palavras chulas em demasia e os batendo com um guardanapo molhado. Enxotados do boteco, os amigos seguiram cantando com braços e ombros enlaçados um no outro. A cena era decadente, contudo, denotava explicitamente a forte amizade daqueles homens deméritos e dissolutos com suas respectivas vidas amarguradas, aviltadas e por vezes mordaz quanto aos problemas que enfrentavam no cotidiano. Para eles, sair da realidade e embebedar-se de tempos em tempos era um válvula de escape mais do que necessária.

Entre uma canção e outra, a dupla bramia ao vento e espantavam gatos e cachorros por entre as esquinas da escura cidade. Rômulo estava quase beijando o chão, suas pálpebras tremiam e sua cabeça balançava bilateralmente. Miguel resistia aos impulsos do corpo sacolejante e parecia menos inebriado comparado ao colega que tinha hora marcada para chegar em casa. Na certa, a esposa o esperava com os punhos cerrados e pronta para atacá-lo como sempre fizera em noites de tormenta. Ela o aguarda com certa paciência, sentada no sofá vendo tv e roendo as unhas esmaltadas; os olhos tremulam entre a tela e o relógio de parede, quando a porta se abre devagarzinho, ela salta no pescoço do marido e… diz que o ama muito enchendo-lhe de beijos e afagos. Miguel morava com o pai decrépito e certamente quando chegasse em sua residência, ele já se encontraria dormindo. Tudo o que o rapaz deveria fazer era limpar as fezes do velho espalhadas pelos cantos, além de trocar suas fraldas sujas por limpas. Miguel amava seu pai e nunca pensou na possibilidade de interná-lo, não bastasse ter a mãe sofrendo longe de sua companhia.

O caminho de volta era fácil, mas por razões óbvias os colegas cambaleantes erraram o trajeto e foram parar no centro da cidade. Rômulo já havia perdido totalmente o equilíbrio e sua voz dissonante pedia ao amigo: “Va-muus prá cazzz!” Miguel, por sua vez, o pegou pelos braços e, totalmente alucinado, respondeu: “Já estamos chegando… Já, já!” A cada esquina que cruzava, a dupla se sentia mais extasiada. Rodaram de um lado para o outro e decidiram procurar um banco para passarem a noite, pois os sentidos não respondiam mais e encontrar o caminho de volta era quase impossível naquela altura. Perto da agência bancária havia uma praça com amplos assentos. Miguel deitou-se devagar, Rômulo desmaiou!

Logo de manhã, os dois acordaram com dores cavalares de cabeça. Miguel estava no chão e com um galo na testa por conta do tombo, Rômulo pulou do banco e levou as mãos sobre a fronte com ar de arrependimento. Era pouco mais de cinco horas da manhã, algumas pessoas passavam pela rua e os fitavam com olhar de reprovação. Rômulo gritou: “Meu Deus! O que nós fizemos!” Miguel levantou-se com extrema dificuldade e ajeitou suas roupas no corpo esguio quando sentiu um volume saliente em sua jaqueta, abriu o zíper dos bolsos dianteiros e enfiou as mãos sobre eles, tirando de lá muito, mas muito dinheiro. Olharam-se estarrecidos por longos segundos até que Rômulo perguntou se Miguel havia roubado aquela grana toda. “Tá louco??? Claro que eu não roubei nada! Colocaram isso aqui enquanto eu dormia, só pode!”, gritou. Rômulo não sabia se chorava ou se saltava de felicidade, não tinha a mínima ideia de onde surgiu todo aquele dinheiro. Será que Deus ou algum anjo incumbido de ajudá-los teria feito uma graça divina diante das necessidades nas quais se encontravam?

Os amigos contavam a ‘bufunfa’ recostados no sofá da sala, enquanto a tv transmitia o noticiário matinal, onde dizia que o banco da cidade fora roubado na madrugada. As imagens internas da agência mostravam um homem bêbado desligando o alarme e, posteriormente, quebrando o caixa-eletrônico com visível falta de destreza: era Miguel. Rômulo virou-se repentinamente para o colega e o agrediu com um tapa no rosto. Miguel caiu para trás, confessando depois: “Sim, fui eu que roubei a grana… É a nossa salvação, cara. A salvação da minha família e da sua também…” disse ele chorando. ” Agora, você vai usar estes cinquenta mil para pagar um tratamento para os meus pais e vai pagar todas as suas dívidas. Entendeu?”, completou o rapaz em lamúrias. “Mas e você? Vão te prender!!”, exclamou Rômulo. “Eu vou fugir com o restante do dinheiro e volto assim que a poeira baixar… Confie em mim.” Ouviu-se um barulho de sirene vindo da rua. Os amigos se entreolharam e imediatamente esconderam a dinheirama. Toc, toc! Bateram na porta. Miguel foi até a gaveta do armário, sacou uma arma e a apontou para o próprio cérebro, proferindo: “Eu não vou suportar ficar preso… Adeus! Pow! Rômulo não acreditou no que seus olhos viram: o seu melhor amigo ali estendido no chão com uma bala atravessada no crânio. A porta se abriu impetuosamente e entrou o dono do bar gritando: “Vocês não me pagaram ontem, por isso chamei a polícia para… Meu Senhor! Quando os policiais adentraram na residência, encontraram a seguinte cena: Miguel morto no piso da sala, Rômulo com a arma na mão e o velho senil se limpando com o dinheiro…

Solução ou problema?

Miss Centenário


Era de se esperar que toda noite a rainha do baile fosse se apresentar na festa das oito. Ela surgia, imprevisível, pela porta dos fundos e todo mundo se sentia no maior show de suas vidas sedentárias quando a bela moça aparecia exibindo muito brilho e ardor. Edgard ficou calado e seus pés não responderam aos comandos, ele vislumbrou a dama da noite com total fixação e prendeu os olhos arregalados nas pernas rijas e torneadas da dona da festa. Ela dançava intrépida no salão. Rodava o vestido florido conduzindo os demais presentes. Muitas mulheres olharam feio para a musa principal exprimindo inveja e inquietação, os homens caiam em si com os beliscões de suas parceiras e imediatamente desviavam os olhares constrangidos. Francisca tinha o poder de encantar a platéia mais indiferente de qualquer lugar com seu carisma e com sua beleza rara, exótica e inebriante. Uma mulher peculiar com traços indígenas, cabelos sedosos e olhar furtivo que homem nenhum soube desvendar. Fazia muito gosto de dançar nos bailes e cabarés da cidade e devidamente expor o seu vigor para a multidão, perdendo-se nas noites como uma leoa faminta à procura da presa. No seu caso, a diversão era um pedestal que lhe ajudava a manter-se viva e translúcida, ludibriando as mazelas da vida castigante.

Bernardo, o marido de Francisca, ficava em casa cuidando dos gêmeos enquanto a mulher saía para se divertir nas noites. Ele não gostava de lugares aglomerados tão pouco música moderna e gente se esfregando. Contudo, não abdicava o desejo da mulher de fazer aquilo que a deixava feliz, desprendendo-a da vida árdua e personificando o alter ego que se escondia naquela jovem mãe. Durante o dia, Francisca era uma simples dona de casa; à noite, Francisca tornava-se a  mais bela musa da cidade. Bernardo, contido pela provisão da qual estava habituado, esperava sentado a chegada da mulher. Exausta e poucas vezes embriagada, Francisca o beijava no rosto para depois cair na cama e dormir sob o olhar extenuado do marido passivo. Observava-a e via o quanto ela era linda, aquele corpo esbelto cheio de curvas e simetricamente modelado, os cabelos sedosos pareciam o desenho de ondas tempestuosas,  a tez  lisa e cuidada traçava o seu corpo semi nu e todo aquele perfume natural atordoavam o homem franzino. Até quando a mulher ia desprezá-lo? Ele ficava em casa dançando sozinho ao som do silêncio, esperando a amada retroceder ao lar, alimentando a esperança de que ela se jogaria em seus braços como nos tempos de outrora.

Francisca trabalhava de garçonete em um barzinho moribundo. Ganhava tão pouco pelos afazeres corriqueiros que estava prestes a abandonar o ofício, mas só não o fazia porque Bernardo não conseguia manter a casa sozinho. Os irmãos univitelinos estavam sempre com fome, esperando providência imediata dos pais que mantinham uma relação estranha para com eles, negligenciando cuidados e atenção. Não que Francisca fosse uma mãe ruim, mas sua preocupação maior era com a beleza exorbitante: tinha que estar sempre linda para o próximo baile. Bernardo ficava no sofá da sala, ela seguia para a festa particular. E assim seguiam eles com a monotonia imposta por eles mesmos para conduzir a falsa impressão de que tudo ficaria bem mais uma vez.

E lá estava ela no palco, dançando e desfilando para homens ricos e garbosos. Entre estas figuras sociais, estava o poderoso Edgard Monteiro, dono da mais famosa rede de rádios da região. Um homem conhecido por ser obstinado e extremamente decidido em suas escolhas. Ele flagrou Francisca imediatamente e quis saber mais sobre a mulher que o fizera ficar hesitante por longos minutos durante toda a performance dançante. Munido de um drink forte, foi falar com Francisca com o ávido charme do qual um homem tradicionalmente burguês dispunha na época. Sentou-se ao lado dela, pedindo lhe permissão, exibindo o sorriso maroto e fugaz, e posteriormente elogiando-a com palavras tênues, sonoras e delicadas. Ninguém a encantara tanto quanto o don juan que acabara de surgir em sua vida simples, elevando a autoestima da garçonete pobre, dando-lhe completa confiança de que seu talento ganhara notoriedade através da visão pungente de Edgard.

Francisca voltou para a casa caminhando pelas nuvens, estava tão animada que nada poderia angustiá-la, nem mesmo o marido reclamando de sua demora exagerada. Na noite seguinte, lá estava ela mais uma vez: contagiando o local com sua graça e fazendo poses insinuosas para Edgard que, por sua vez, não parava de fitá-la nem por um segundo. Cada relance era um convite à tentação, contudo Francisca mantinha o pensamento nos filhos e não queria que eles tivessem uma mãe adúltera. Ela estava lutando contra si, usando de todas as forças para não ceder à beleza penetrante do homem que prometera riqueza e sucesso a ela em um dos diálogos que tiveram. Se perante às leis matrimoniais seu instinto de esposa fiel a acusava, o desejo tentador de entregar-se a ele explodia por dentro e a fazia suspirar quando perto do galanteador da festa. Edgard passou a chamá-la de “minha miss”, provendo entre eles uma amizade chamativa da qual todos em volta se indagavam se havia um caso amoroso ou se estavam contidos apenas no sentimento de afeição. Mas não foi bem isso que Bernardo entendeu quando os viu na cama de um quarto de hotel logo após receber um telefonema anônimo. O marido não fez alarde, principalmente porque desconfiava da esposa e não a culpou pela traição, no entanto, deu-lhe um tapa no  rosto e a mandou embora sem contestações. E assim ela o fez. Culpada e envergonhada, nunca mais viu os filhos.

A vida de Francisca ao lado de Edgard era totalmente diferente de quando estava com Bernardo. Ela tinha tudo o que uma mulher dos anos 40 necessitava: uma casa com três quartos, um lindo Ford conversível e um guarda-roupa invejável com peças finas e caras. A miss estava em ascensão como atriz de radionovela e continuava a vislumbrar as noites com sua dança maravilhosa ao lado do homem que proporcionou a realidade de seus sonhos calados. Lá estava ela, brilhando e crescendo a medida que o tempo fluía e passava no vasto mundo das aparências. Francisca saiu do anonimato e estrelou em muitos folhetins, contracenou com atores consagrados e tornou-se uma das mulheres mais cobiçadas do Brasil. Edgard e Francisca ganharam o posto de casal exemplar e figuraram entre as personalidades mais carismáticas do gosto popular. Jantares com celebridades, viagens transcontinentais e visitas a presidentes marcavam a rotina diária dos dois. No entanto, Francisca carregava uma cruz consigo e não se perdoava com o que fizera aos filhos e ao ex-marido. Tentou procurá-los, mas Bernardo havia sumido sem deixar vestígios… Depois de um tempo, ela desistiu e concentrou-se apenas na carreira de atriz.

Depois do rádio, Francisca estreou ma Tv. Edgard a colocou como protagonista de novelas e o sucesso surgiu rápido. Todos paravam para vê-la interpretar. Francisca foi para o cinema, ganhou o Oscar trabalhando com Marlon Brando e Elizabeth Taylor. Estava linda de se ver. No ponto culminante de sua carreira, foi líder do movimento feminista nos anos 60 e arregaçou as mangas contra a ditadura militar, todavia teve que fugir do Brasil com Edgard para os confins da Europa. Regressaram à terra natal e a miss continuou com a vida de glamour da qual nunca se desprendera. Ela já estava com quase sessenta anos, mas o mesmo olhar misterioso continuava a cingir seu rosto de poucas rugas.

Francisca foi chamada ao programa da amiga Hebe Camargo para conceder-lhe uma entrevista pessoal. Entre perguntas e declarações, a atriz desabafou profundamente e contou ao país sobre os filhos que não via a mais de trinta anos. Disse que seu maior sonho era de encontrá-los novamente para dizer o quanto estava frustrada com as coisas que os separaram. Hebe a consolou, mas depois do programa Edgard foi violento e inescrupuloso pela primeira vez. O marido, não bonito e charmoso mais, deu-lhe dois tapas, avisando-a que se falasse de novo nas crianças a mataria. Francisca alegou que estava cansada da vida de celebridade e afirmou que partiria em busca dos filhos mesmo que ele a impedisse. Edgard era frio demais e estava tomado pelo orgulho para entender o sofrimento de Francisca que passou tanto tempo com este tormento na consciência, com o coração flamejando toda vez que lembrava o nome dos garotos.

Francisca sempre se perguntou porquê havia deixado os filhos nas mãos do pai displicente. Poderia ter fugido com eles ou simplesmente acompanhado o crescimento de ambos. Na época era tão jovem e estava demasiadamente apaixonada por um príncipe de conto de fadas, sem saber que na verdade era um homem medíocre e insensível cujo propósito maior era barganhar às suas custas. Pensava se todo aquele sucesso valia mesmo a pena e se todas aquelas pessoas solenes eram felizes realmente ou se fingiam por dentro como ela própria fizera diversas vezes. A cada data de aniversário dos gêmeos, ficava trancada em seu quarto chorando e lamentando-se por negar amor a eles. Com o passar do tempo, ao interpretar mulheres valentes e mães decididas, notou que não fizera de coração por não saber a sensação de uma genitora presente.

Francisca está com cem anos. Com a saúde debilitada, ela padece em uma cadeira de rodas desde que tentara se suicidar em 1987. Edgard também estava no carro com o qual ela bateu violentamente contra um poste. Ele morreu, ela ficou paraplégica. Hoje, Daniel e Miguel e seus filhos cuidam da mãe que já não enxerga mais. Só profere de vez em quando algumas frases do tipo: “Eu amo minha família, é tudo o que eu tenho”.

As vezes um erro pode levar uma vida inteira para ser perdoado.